Quem está dentro e quem fica de fora? 

OPINIÃO - Helber Henrique Guedes

Data 02/05/2026
Horário 05:00

Nos últimos meses, tenho vivido uma experiência que me fez olhar a cidade de Presidente Prudente de uma forma diferente. A partir da minha atuação como Agente Territorial de Cultura, vinculada ao Programa Nacional dos Comitês de Cultura, estou no terceiro ciclo de atividades — um momento de sistematização, reflexão e devolutiva das ações realizadas no território.
Entre essas ações, uma tem se destacado: o mapeamento dos pontos de cultura e das iniciativas culturais da cidade. Pode parecer algo simples à primeira vista. Um formulário, algumas visitas, algumas conversas. Mas esse processo vai muito além dos dados quantitativos.
Ao longo do mapeamento, foi possível identificar uma diversidade enorme de práticas culturais espalhadas pela cidade. Grupos de capoeira, coletivos de audiovisual, espaços de cultura de matriz africana, iniciativas comunitárias, projetos de formação e produção cultural. Uma cidade viva, pulsante, que produz cultura todos os dias.
Mas também ficou evidente um outro aspecto: grande parte dessas iniciativas ainda não está visível. Não aparece nos circuitos mais tradicionais, não está conectada às políticas públicas de forma estruturada e, muitas vezes, segue existindo na base da resistência. Outro ponto que chamou atenção foi a forma como muitos grupos se reconhecem como pontos de cultura, mesmo sem certificação. Esse dado não aparece apenas na percepção. Ele se confirma no próprio levantamento realizado. Entre os respondentes do mapeamento, apenas 32,3% se identificam como pontos de cultura certificados, enquanto 16,1% estão em processo de certificação. Por outro lado, 45,2% afirmam não possuir certificação e uma parcela ainda não sabe informar sua situação. Esses números são uma questão central: existe uma forte produção cultural no território, mas que ainda não está plenamente integrada às políticas públicas de reconhecimento e fomento.
Isso não é um erro — é um sinal. Um sinal de que há um desejo de pertencimento, de reconhecimento e de acesso às políticas culturais.
E é justamente aí que o mapeamento ganha sentido. Mapear não é apenas listar nomes ou marcar pontos no mapa. É reconhecer quem faz cultura, onde faz, como faz e em quais condições. É tornar visível o que muitas vezes fica à margem. É criar base para pensar políticas públicas mais justas, mais territoriais e mais conectadas com a realidade.
Mas o mapeamento, por si só, não resolve. Ele precisa gerar retorno. Precisa virar diálogo. Precisa se transformar em ação. Por isso, a proposta agora é dar um próximo passo: realizar uma devolutiva pública desse processo, reunindo os coletivos culturais, a sociedade civil e o poder público para discutir os resultados e, principalmente, os caminhos possíveis a partir deles.
Entre os temas que devem estar no centro desse debate estão o fortalecimento da rede de pontos de cultura, a ampliação da participação desses coletivos nos espaços de decisão — como o Conselho Municipal de Política Cultural — e a necessidade de ações formativas que aproximem os agentes culturais das políticas existentes.
A cultura de uma cidade não está apenas nos grandes equipamentos ou nos eventos mais visíveis. Ela está nos territórios, nas comunidades, nas práticas cotidianas e nas pessoas que, mesmo diante de dificuldades, seguem fazendo acontecer.
Mapear é o primeiro passo para reconhecer. Reconhecer é o primeiro passo para transformar. E talvez o maior desafio agora não seja apenas saber onde estão os pontos de cultura, mas decidir o que vamos fazer com esse conhecimento.
 

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