Quem morreu, morreu em vão

OPINIÃO - Raul Borges Guimarães

Data 20/02/2022
Horário 05:25

Não consigo avançar na escrita da semana sem pensar na tragédia (anunciada) que se abateu mais uma vez sobre Petrópolis, a famosa cidade imperial do Rio de Janeiro. Enquanto escrevo estas poucas linhas, o povo de lá ainda conta as vítimas. E muitos corpos humanos se misturam na lama que se acumulou nas ruas com todo tipo de objeto - pedaços de pau e troncos de árvores, caminhões e automóveis, objetos pessoais. Coisas em si, abandonadas à existência própria, independente do espírito e do conhecimento que este tem delas.

Já escrevi outro dia que a chuva simplesmente chove. Naquele hiato de espaço e tempo este fenômeno atmosférico significou um episódio extremo que acumulou em apenas seis horas o volume de chuvas (250 milímetros) que normalmente ocorre no mês inteiro nesta época. Consegue imaginar quanta água escorreu desde os morros que cercam a cidade até as principais avenidas das margens dos rios que cortam a cidade?

Mas eu insisto! Não foi o temporal que atingiu a cidade na região serrana do Rio que provocou centenas de vítimas e pessoas desaparecidas. É a existência material da cidade que aparece como um dado fundamental da compreensão do espaço enquanto presença dos tempos que se foram e permanecem através das formas e objetos. 

Sabemos que a intervenção humana transformou profundamente a superfície da Terra mesmo nos lugares onde tal transformação não parecia possível. Foi a intervenção humana que ajudou a criar muitas dentre as mais apreciadas e terras férteis do mundo, como nas paisagens moldadas por camponeses da Toscana, que arredondaram os morros e formaram as escarpas para criar uma arquitetura de terraços. Sabemos também que o desflorestamento e erosão iniciaram-se há muito tempo na América do Sul. Foi por este motivo que o império Inca, no Peru, viu-se forçado a mudar-se para os vales mais altos dos Andes e lá construir seus terraços agora muito admirados numa tentativa de salvar o solo.

Em Petrópolis o que se observa é uma sinistra combinação de matéria, corpos e objetos, da lama, do caos. Extração da renda da terra (potencializada pela “taxa do príncipe” cobrada na comercialização de terrenos e imóveis pelos herdeiros da coroa imperial), precarização da moradia urbana em áreas suscetíveis ao deslizamento, priorização de políticas do curto prazo de tempo dos mandatos... E o barracão, pedindo socorro à cidade aos seus pés, pobretão e infeliz, faz pensar que não valeu, faz pensar que quem morreu, morreu em vão (Salve Emicida!) É a vida que continua ou pelo menos luta para continuar sendo vivida.

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