O voo decola rumo aos Estados Unidos.
Minutos depois, uma das turbinas explode e começa a pegar fogo. Todos assistem horrorizados à cena. A morte está bem próxima agora e alguns pensamentos ecoam em meio à gritaria dos que nada pensam:
“Meu Deus, por que que eu disse tudo aquilo para ela? Não havia necessidade e nem pedi perdão antes de sair para esta viagem.”
“Meus filhos. O que serão deles? Já são crescidos, é verdade, com mais de 18 anos, mas eu sempre estive ali em todos os momentos de aperto e necessidade. Eles não sabem se virar sozinhos.”
“E agora que eu deixei para cuidar da saúde após os 50? De que adianta?”
“Não liguei de volta para meu irmão ontem. Tadinho, sei que estava mal porque terminou com a namorada dele. Mas eu não estava com paciência. Queria ligar para ele agora.”
“Minha mãe não sabe que eu a amo e tudo que falei nestes últimos anos, minha distância, meu afastamento, era para ela percebesse e viesse falar comigo. Minha mãe.”
“Mês passado eu quis tirar minha vida. Hoje vou conseguir sem que eu seja o protagonista. Não era para ser assim. Eu não quero ir embora.”
“Prometi que ia visitar meu pai no asilo esse mês. Adiei de novo. Ele nem deve saber quem eu sou mais. Ainda bem, não vai sofrer”.
“Por que eu guardei tanto dinheiro? Para quê?”
“Eu não o odeio. Jurei que odiava. Mas não odeio. Só tive medo de dizer que ainda amo.”
“Por que eu nunca aprendi a dançar? Sempre tive vergonha. Que idiotice. Ninguém vai dançar em volta do meu caixão.”
“Eu paguei a conta de luz este mês?”
Nenhum desses pensamentos existia meia hora antes do avião decolar.
No chão, antes do embarque, o que havia era pressa, cobranças, indiferenças e mágoas cultivadas.
No chão, havia tempo de sobra e justificativas para escolhas adiadas.
No chão, todos os perdões pareciam ter amanhã.
Mas nunca ninguém saberá quando é que o amanhã irá se encolher para apenas um segundo e a vida ficar prestes a desaparecer, como se num apagar de luzes.
E muito menos, talvez, alguém terá a chance de ver o avião voltando e pousando a salvo no aeroporto para viver uma nova chance.