Raízes do Brasil

OPINIÃO - Raul Borges Guimarães

Data 21/03/2021
Horário 05:25

     Desde maio do ano passado, tenho publicado crônicas no jornal de domingo. Durante os últimos meses tive a liberdade de falar sobre qualquer assunto, empregar uma linguagem mais coloquial, descrever cenas cotidianas e banais (algumas divertidas, outras tristes). Até a semana passada foram entregues 42 crônicas através das quais eu me reencontrei com cenas cotidianas e com fatos remanescentes que marcaram a minha vida. Obviamente, eu tenho as minhas próprias preferências dentre os textos produzidos. É natural que as contingências de determinadas semanas tenham proporcionado um resultado mais convincente ou mais prazeroso. Mas isto não quer dizer que o leitor tenha que concordar comigo. Pelo contrário, gosto não se discute. Cada um se apropria do texto e se identifica com ele como bem entende. Como já dizia Nelson Rodrigues, toda a unanimidade é burra! 
    Hoje a brutalidade do mundo lá fora impõe a todos nós brasileiros repensar o que estamos fazendo de nossas vidas. Na semana que entra, caminhamos em ritmo acelerado para ultrapassar 300 mil vidas perdidas com a pandemia! Com dados tão assustadores, a Covid-19 se transforma na maior causa isolada de mortes no Brasil em 2021. Nenhuma outra causa de morte, quando comparada as médias anuais, alcança números tão assustadores. A Covid-19 matou 15 vezes mais do que o câncer de cólon e o de mama, 25 vezes mais do que a Aids, sete vezes mais do que os acidentes de trânsito e cinco vezes mais do que os homicídios.  Diante dos números, há aqueles que dirão: “E daí?”
    Daí que os números chocam. Melhor dizendo, os números não são números. São vidas perdidas. Muitos brasileiros, pais de família, trabalhadores, empresários talentosos, artistas. É a destruição de uma nação. Espetáculo de horrores que o mundo assiste com tristeza e perplexidade... E a única imagem que vem à minha mente é a da queima de livros. Cada vida perdida é um livro jogado fora. O Brasil está incendiando a sua biblioteca nacional! Diante de imagem tão bizarra, me deparo com três livros que guardo com especial carinho na minha estante: “Casa-grande e Senzala”, de Gilberto Freyre; “Raízes do Brasil”, de Sérgio Buarque de Holanda; “Formação do Brasil Contemporâneo”, de Caio Prado Júnior. São obras seminais que exprimem o pensamento crítico e a análise social que impulsionaram o Brasil a sonhar com o futuro. A projetar-se como uma nação mais livre e democrática. Caio Prado já foi para o lixo. No momento, temos em mãos “Raízes do Brasil” (vale a pena revisitá-lo!). É como se tivéssemos retornado ao Brasil anterior à Getúlio Vargas. Mas caminhamos rapidamente para Casa grande e Senzala, um país para poucos privilegiados, simples exportador de commodities e de expropriação de riquezas minerais. Sim, não são apenas livros. As vidas importam! 
 

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