Resiliência

OPINIÃO - Raul Borges Guimarães

Data 07/11/2021
Horário 06:45

O exercício de escrita das crônicas foi incorporado na minha rotina e transformado em um momento especial da semana. Sempre diante do computador às sextas-feiras, completamente exaurido pelas infinitas tarefas da universidade, sinto um vazio no meu peito. Não raras vezes, estou sem qualquer inspiração ou um tema em mãos. O mundo da pós-verdade no qual estamos mergulhados é etéreo como uma bolha de sabão. A intolerância reina e eu resisto a entrar em falsas polêmicas. Simplesmente, eu não quero ser pautado pelos processos automáticos da própria máquina. É a resistência diária contra a metamorfose do produtor em produto midiático.
Apesar da crônica ser um gênero que dialoga com a vida cotidiana e, talvez por isso, flerta com as páginas do jornal, diz o meu amigo Jayro que eu tenho encontrado um caminho bem pessoal. Eu concordo com ele. Sigo os labirintos da minha memória afetiva. Qual é o método? Atenção flutuante…
Obviamente, estas minhas escolhas nem sempre agradam, não é mesmo Godoy? O que importa é que tenho feito descobertas incríveis. Escrever é uma espécie de espelho onde eu passo a me reconhecer. Melhor dizendo, eu passo a me conhecer melhor. As crônicas também são uma janela a partir da qual eu olho para o mundo! Nesse rico processo tenho encontrado a figura do meu pai. Bem, sou mais parecido com ele do que imaginava, exceto numa característica que talvez seja a grande divergência entre nós: a capacidade de me emocionar diante das situações mais banais. Isso mesmo… eu sou chorão e cresci ouvindo daquele baiano teimoso que “os homens não choram”! E foram muitos os embates e estranhamentos entre nós por causa das lágrimas que escorrem fácil. Vocês não vão acreditar, mas eu me emociono em situações inusitadas (e com o avançar da idade está cada vez pior!). Eu choro nos casamentos religiosos mais do que a mãe da noiva. Eu choro em cenas das novelas. Nas festas de formatura. Nos reencontros. Nas despedidas.
Eu queria ter tido tempo para conversar com o papi sobre nossas lágrimas perdidas, mas não tivemos oportunidades para isso. Eu tenho certeza que ele muitas vezes chorou escondido. Ou talvez tivesse guardado aquele menino assustado que saiu sozinho lá da Bahia para enfrentar a cidade grande. Concluo que havia ali não a teimosia ou o coração embrutecido, mas a resiliência necessária para enfrentar e superar as adversidades como se pudéssemos recitar juntos aquele lindo canto de Drummond:
“Vamos, não chores
A infância está perdida
A mocidade está perdida
Mas a vida não se perdeu…
 

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