Retiro

OPINIÃO - Sandro Rogério dos Santos

Data 28/02/2021
Horário 05:55

Não vivendo em e não podendo frequentar um deserto territorial, precisamos de tempos de deserto; daqueles momentos para o esvaziamento interior, o silêncio e o bloqueio às urgências exteriores – que costumam ditar o ritmo (desassossegado) da vida diária. Falando como religioso e para religiosos, este é um tempo de retirada. A pandemia nos impeliu ao deserto... E talvez essa experiência dolorosa nos sirva de penitência e purificação tornando-nos melhores em determinados pontos e situações no alvorecer do domingo pascal. Isto é, quando a pandemia passar, com qual olhar e coragem enfrentaremos a vida? A pessoa forjada neste tempo –longo, bem longo, cansativo, dolorido, triste, amargo...– poderá oferecer frutos ao seu entorno e ao mundo?

Na busca de Deus, ensinam os monges, nos encontramos com o próprio eu. Não há verdadeira experiência do sagrado, do mistério divino sem que nos encontremos a nós próprios. Ninguém deveria estar no mundo, desfrutando da existência sem se perguntar as famosas e inquietantes questões filosóficas (quem sou, de onde vim, para onde vou). O tempo quaresmal –o deserto provocado– facilita a experiência do encontro com Deus. Toda pessoa aberta ao mistério essa experiência. O processo é longo e exige coragem, disciplina, abertura interior. Costumamos não gostar do que vemos de nós no espelho; quando o espelho são outras pessoas, as afastamos para longe... E ao afastar quem nos pode ajudar no processo de autoconhecimento, acabamos por também afastar a oportunidade da cura, da libertação, da transformação, ou noutra palavra, da conversão.

Deus é amor (1 João 4,8). Revelou-se Pai que ama o Filho cujo socorro vem em auxílio da nossa fraqueza. Um Pai cujo coração está sempre aberto. Quem ama é livre e não aprisiona, se oferece para o outro e não exige a oferta do outro para sim. Assim, quanto mais ajustamos o olhar para a imagem projetada no espelho mais perceberemos quanto Deus ama a nós, seus filhos e filhas. E cientes do quanto o Pai Amado nos espera poderemos abrir-nos, e deixar a Sua Graça operar em nós. Fazer um retiro espiritual, um tempo de deserto, deixar-se alcançar pelo Pai é um gesto sábio de quem precisa da força que vem do alto, do amor que cura feridas, ansiedades, rancores, medos, vaidades, prepotências, violências...

Se ainda não fez, procure um tempo para rezar. O tempo é a condição fundamental para a oração acontecer. Diz São Francisco de Sales: “É muito importante dar atenção a Deus, durante meia hora diária; mas quando os afazeres são muitos, então é necessário destinar uma hora inteira para a oração pessoal”. Faça a experiência. Menos exterioridades, mais vida interior.

Seja bom o seu dia e abençoada a sua vida. Pax!!!

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