Rir para não chorar

OPINIÃO - Raul Borges Guimarães

Data 19/12/2021
Horário 04:30

Estou diante da tarefa de escrever a última crônica do ano. Com o texto de hoje eu completo 80 crônicas que, de alguma forma, marcaram a minha trajetória no decorrer da pandemia da Covid-19. 
Fiquei pensando na experiência semanal que comecei aqui no dia 29 de maio de 2020... Um sentimento de despedida vai tomando conta de mim. Apesar do meu sincero desejo de que os lojistas recuperem um pouco do tempo perdido, tenho procurado passar ao largo das compras frenéticas natalinas. Prefiro falar com meu botões. Ouvir os variados ritmos do silêncio no vazio da noite.  
“Ó, quantas contradições! Passo a ser dono do meu tempo, mas sou dominado por uma saudade profunda, pensava eu...”. Dai eu lembro do maravilhoso “Leilão”, de Heckel Tavares e Joracy Camargo (regravado pela querida Mônica Salmaso.!). É uma música épica que registra a saga do negro escravizado que nunca mais reencontra a sua mulher. Lembro também do reencontro da “Noite da Seresta” no Centro Cultural Matarazzo, uma vez que a tradicional atividade de nossos músicos e cantores do bolero, da valsa, do choro e do samba-canção não pôde acontecer no tradicional espaço de espetáculos da Praça Nove de Julho nos últimos dois anos! E que tal o “Samba na cidade”, projeto de extensão que aproxima a Unesp das comunidades populares de Bauru? Salve Dona Neusa! Salve Roberto Seresteiro! Salve os tradicionais sambistas prudentinos, como Ninho, Césinha e Betinho!
Segundo o historiador Luiz Antônio Simas, “o brasileiro não inventou o samba por ser um povo alegre... não fazemos festa porque a vida é fácil. Fazemos festa exatamente pela razão contrária... não se samba porque a vida é mole; se samba porque a vida é dura”, não é mesmo Nelson Cavaquinho? Saiba que eu gosto de uma de suas canções mais belas: “Tire o seu sorriso do caminho/Que eu quero passar com a minha dor...”  Mas parece que a mana Vivi prefere Cartola. Apesar dele também carregar a voz de tristeza e boemia, ele representa um pouco de esperança ... não é não?  “Devias vir/Para ver os meus olhos tristonhos”... mas “quem sabe, sonhavas meus sonhos/Por fim”... Mais que de pronto responderia Nelson Cavaquinho: “já vem a saudade outra vez me visitar/Que visita triste, só me faz chorar!”
E assim, bêbado de sambas e tantos sonhos, como bradou Paulinho da Viola, despeço-me do inominável ano de 2021, mas com muito samba no pé, percussão variada – pandeiro, atabaque, surdo, repique de anel, tamborim e agogô. “Deixar-me ir por aí”... “a rir para não chorar”. Cartola, presente!
 

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