São outros

Carlito Cunha

CRÔNICA - Carlito Cunha

Data 10/03/2026
Horário 07:30

No meu tempo de criança havia bons contadores de piadas. Acho legal o “jeito novo de contar uma piada velha”. É que há piadas tão velhas que se perderam no tempo e eu gosto de resgatá-las contando diferente, como uma pequena história.
Antigamente, nas cidades do interior, quase não havia bancos. Corria dinheiro vivo, como se diz, guardado em casa ou nas carteiras, pois havia os comerciantes, os fazendeiros, médicos, funcionários públicos, e até os professores, que na época ganhavam bem. As estradas de ferro tinham um trenzinho especial, pagador, que levava os envelopes com os pagamentos dos ferroviários. Parava na Estação, os funcionários já esperando, pois sabiam o dia em que ele passaria. Ficavam aglomerados esperando que lhes chamassem o nome, escrito no envelope que trazia notas e até moedas relativas ao seu salário. Recebia, assinava o recibo e ia pra casa ou para o bar, liquidar a “pendura”.
Geralmente os ricos andavam com suas carteiras recheadas, no bolso, sem medo de assaltos, que não havia. E isso me lembra um causo verídico que se deu com duas pessoas que conheci. Um era fazendeiro, rico, dono de vacas leiteiras e o outro um meu colega, ferroviário da Sorocabana que chamávamos pelo apelido de Doca, cujo nome era Alcides Dainesi. O fazendeiro ia vez ou outra à Estação onde o leite de suas vacas era despachado em latões. Esse trabalho, diário, era feito pelos seus empregados. Em uma dessas vezes o fazendeiro deixou cair, na plataforma da Estação, sua carteira recheada de notas grandes e não percebeu. Doca achou-a e verificando o conteúdo ficou sabendo de quem era. Procurou por ele e entregou-a:
- Seu Augusto, o senhor deixou cair sua carteira.
- Brigado, menino – disse ele constatando que se tratava realmente de sua carteira e abrindo-a retirou uma remanescente nota de 20 mil réis (pois estávamos ainda no começo dos anos 1950), disse: - Toma, pra você, que nem pra vive ocê presta.
O meu amigo Doca não gostou da observação, mas gostou dos 20 mangos (não importando tratar-se de mil réis ou cruzeiros).
Disse tudo isso para contar uma história antiga.
Um fazendeiro emprestou 500 mil réis para uma pessoa que se dizia necessitada. O “necessitado” resolveu a sua necessidade, com o dinheiro emprestado do fazendeiro e não falava em devolvê-lo. Cobrado, dava uma desculpa. Quando via o credor na rua, dava um jeito de desviar-se para não ser encontrado. Num domingo o fazendeiro viu que estavam os dois na mesma missa; bem afastados, pois o devedor sabia que o credor estava ali. O fazendeiro viu uma boa oportunidade de “encostar na parede” o velhaco.
Na hora da homilia, todo mundo prestando atenção, o fazendeiro interrompeu o padre que estava no púlpito e, de pé, disse para que todos na igreja ouvissem:
- Seu Carmelo Rúbio de Oliveira, que se encontra nesta igreja. Gostaria de lembrar o senhor, dos 500 mil réis que lhe emprestei já faz seis meses e o senhor ainda não pagou...
O padre, do púlpito, com todo jeito pra não melindrar o fazendeiro que era religioso e colaborador da igreja, das festas e das quermesses disse:
- Senhor Natário. Peço ao senhor e ao seu Carmelo Rúbio que me encontrem depois da missa, na sacristia, e tenho certeza de que resolveremos isso...
Mas o fazendeiro, conhecendo muito bem o seu devedor, continuou, teimoso, em sua cobrança embora por mais duas ou três vezes o padre fizesse a mesma sugestão, até que o padre encontrou um meio de resolver:
- Senhor Augusto. Acho que o senhor está enganado. Quem pediu 500 mil réis emprestados ao senhor, fui eu. Encontre-me depois da missa, na sacristia e eu lhe pagarei.
O fazendeiro, raciocínio rápido, virou-se para o púlpito e disse alto para que todos ouvissem:
- Não, seu vigário, o seu caso “são OUTROS quinhentos!”

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