Saudades das coisas bestas da vida

Roberto Mancuzo

COLUNA - Roberto Mancuzo

Data 30/03/2021
Horário 06:40

Uma coisa é certa para mim: enquanto não formos todos vacinados, a vida não voltará ao normal. Pode espernear, chorar, rezar, jogar praga e reclamar no “feicebuk”. Também não vai rolar sem contar com a educação de uma grande parte da galera que teima em não se isolar, em não usar máscara ou em deixar de dar um rolê por aí.
Mas vou contar, amigos: faz mais de um ano que esperamos e rogamos para que tenhamos de volta a nossa rotina besta de sempre. 
Há mais de um ano que os pequenos momentos que tínhamos se tornaram grandes saudades. 
Dias desses eu terminei as duas primeiras aulas online da noite, levantei, abri a porta do quarto e deu um nó na garganta: minha vontade era de seguir para sala dos professores, dar uma risada, tirar um sarro com alguém, jogar conversa fora, falar um pouquinho mal de alguém, que a gente não é de ferro... Depois, iria passar na cantina da Telma, pegar um expresso bem forte, contar umas piadas para as amigas do atendimento e seguir para as duas últimas aulas. Mas qual o quê? Que sala, mano? Que cantina? Quais amigas? 
E quem está com saudade do trabalho na “firma”? Das caras amassadas do início da manhã, do silêncio de todos com sono, do barulhinho da impressora, da piada ridícula do tiozão do pavê? Do holerite, baixo, mas que vinha? Do “liga o ar”, “diminui o ar”, do carimbo e de “caçar” a caneta que alguém roubou. Até aquele cara chato pra caramba, que você calculava bem para não topar com ele na cozinha, dá saudade. 
Uma amiga me disse que morre de saudade até do engarrafamento para levar ou buscar os pequenos na escola, aquela bagunça toda, motoristas que não se entendem, buzinas, as perigosas de óculos escuros gigantes e pijamas dentro do carro, meio dormindo e meio acordadas. Agora não. A gente acorda as crianças, tira da cama e coloca na escrivaninha... do quarto mesmo. Liga o notebook e espera o milagre de que eles tenham um pouquinho de alegria em ficar ouvindo a “profe” online.   
As compras online também são outra decepção. A gente sempre teve esta opção, mas quando ela virou obrigação, perdeu a graça. Não ter como experimentar, sentir, verificar com atenção a peça é um terror! Queremos de volta a opção de ir à loja ou ao supermercado do mesmo jeito que também queremos ir à igreja rezar sem ter que acessar o Youtube da paróquia. Foi sensacional, e é ainda, ver o esforço de todos neste momento. Os templos ficaram vazios e cada religião tratou de conferir tecnologia à realidade e todos os dias há missa, culto, celebrações e o que quer que seja. Mas não é igual. O espiritual precisa de mais conexão do que uma banda larga.
Agora, com vontade de chorar em posição fetal eu fiquei mesmo quando vi uma festa de aniversário de criança realizada pelo Zoom. Ah, gente. Por favor. Eu já achava muito esquisito o tal do happy hour virtual, agora festa de criança, não pode. Os psicólogos vão ter muito trabalho lá na frente. Imagine um adolescente cheio de trauma dizendo: “Minha festa de aniversário de 7 anos foi pelo Meet!!!” E choooora. 
Enfim, poderia gastar páginas aqui com exemplos do que não temos mais, só que a verdade é uma só: o ser humano só é humano mesmo se os cinco sentidos estiverem livres para agir. O lance é que de uma hora para outra ficamos restritos apenas à visão e à audição e nada preenche o vazio que há sem o tato, o paladar e o olfato. Pode parecer uma constatação óbvia, mas faz muito sentido e explica demais a ansiedade e a depressão que vivemos.
Só não tem jeito. Antes de voltarmos a ter as “coisas bestas” da vida, precisamos cuidar daquelas que são “coisas importantes”: sermos vacinados, não provocar aglomerações, lavar bem as mãos e usar máscara. Simples assim.  


 

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