Se você se compara com os outros, vai doer

Roberto Mancuzo

CRÔNICA - Roberto Mancuzo

Data 02/02/2021
Horário 06:30

O assunto é delicado e sei que você já se viu na situação que vou apresentar.
Você se compara a outras pessoas ou as têm como referência? 
O papo reto é: se você entrar numa de se comparar com pessoas, especialmente na mesma área profissional em que atua, nunca irá sair do lugar. Ou pior, nem vai ter motivação para entrar de vez no mercado.
Meu exemplo, como fotógrafo que sou: eu não me comparo ao Sebastião Salgado, só para ficar em um dos top 10 no mundo. Se eu for me comparar ao Tião (intimidade que fala, né?), eu estarei muito ferrado. O cara já fez de tudo, foi da Agência Magnum, criou tendências, é um dos papas na fotografia em preto e branco, viajou o mundo atrás de populações isoladas, conflitos e regiões intocadas. Já publicou muitos livros pela editora Taschen, uma das mais importantes do mundo, vive parte do ano em Paris. Paris!
Enfim, entende por que eu não posso me comparar com o Salgado? A luta seria muito injusta e eu nem teria coragem de apontar minha câmera para produzir uma fotografia qualquer. Já ia dizer logo de cara: “para quê, se já tem o Sebastião Salgado por aí?”
Ao contrário deste pensamento devastador, eu tenho o Sebastião Salgado como uma referência no mundo fotográfico. Ah, isso sim! Eu leio sobre ele, vejo muita foto, analiso cada detalhe, busco entender a técnica dele, a maneira como se organiza, comercializa e expõe suas fotos. Estou sempre de olho porque um dia o Sebastião começou como eu comecei. 
Não é que não tenha a pretensão de chegar ao que ele é. Até poderia ter, mas não é o caso. O que eu não quero é sofrer com algo que não me levará a lugar nenhum. Como disse um dos meus professores certa vez: “a comparação é a métrica da infelicidade!”
E além de empacar a vida de qualquer profissional, a comparação ainda fará com que você tente copiar alguém e aí o terreno é muito mais perigoso. 
Um outro exemplo: é normal que em agências de comunicação, profissionais mais novos ouçam dos chefes e coordenadores para que pensem em conteúdo a partir do que o concorrente posta ou um nome importante na área faz. Mas quando pedem isso, eles querem que você copie ou tome essa galera apenas como referência? 
Vamos partir de um princípio bem simples: ninguém cria nada a partir do zero absoluto. Todas as nossas criações têm origem interna, quando partem de nossa visão e experiência de mundo, o que alguns chamam de bagagem cultural; e externa, quando não temos a informação e precisamos buscar em alguma outra fonte. E aí é que começa o problema.
As fontes externas nos dão a chance de copiar algo já realizado ou ter parâmetros de alguma ideia. A diferença entre cópia e referência já está aí. A cópia mantém o conceito da obra original, que pode ser o raciocínio, o argumento, as linhas, cores e formas, mas especialmente em produção de conteúdo, vamos falar de raciocínio. Uma boa sacada de alguém não pode ser copiada, mesmo que com palavras diferentes ou imagens diferentes. E atenção, o extremo da cópia, sem a devida autorização ou créditos ao autor, pode se configurar em crime. É o famoso plágio. Não dá bem cadeia, mas dá uma baita dor de cabeça.
Fora isso, é sempre bom lembrar de Walter Benjamin, teórico da escola de Frankfurt, que cravou sem igual a noção de que as cópias destituem a obra de arte de sua aura. E não é? Quanto mais se copia, menos autenticidade e, portanto, menos atenção e sentido. 
 

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