Sem retomar as prisões, o Brasil nunca controlará o crime organizado

OPINIÃO - Marcelo Creste

Data 06/01/2026
Horário 05:00

O Brasil discute segurança pública olhando para as ruas, mas o centro real do problema está atrás das grades. Enquanto manchetes mostram confrontos policiais, apreensões e operações espetaculares, o coração do crime organizado pulsa nas penitenciárias — espaços que, há décadas, o Estado deixou de governar. Retomar o controle das prisões não é apenas uma necessidade administrativa; é uma condição estrutural para qualquer política séria de combate ao crime.
Hoje, as penitenciárias brasileiras funcionam como quartéis-generais de facções criminosas. É de dentro das celas que se comandam extorsões, tráfico de drogas, lavagem de dinheiro, execuções, recrutamento de novos integrantes e a expansão territorial de grupos que já operam como corporações armadas. A prisão, que deveria ser a interrupção do poder criminoso, tornou-se sua fonte mais estável. O país conseguiu transformar o cumprimento da pena em oportunidade de crescimento das facções — e paga um preço altíssimo por isso.
A dinâmica é simples e devastadora: prende-se mal e, ao fazer isso, alimenta-se a estrutura que deveria ser desarticulada. Jovens primários entram por crimes menores e saem integrados a organizações com disciplina, hierarquia, dívidas internas e compromissos que perduram mesmo após a liberdade. As prisões brasileiras não neutralizam o crime; elas o reproduzem e o profissionalizam.
Nenhuma polícia do mundo, por mais equipada que seja, consegue neutralizar nas ruas um poder que se reorganiza diariamente dentro das penitenciárias. Não existe operação espetacular capaz de compensar o fato de que facções dão ordens, arrecadam dinheiro, punem desertores e expandem negócios a partir de unidades que deveriam estar sob controle absoluto do Estado. Enquanto o sistema prisional permanecer capturado por essas organizações, todo esforço policial será apenas reação, nunca prevenção.
Retomar as prisões significa, antes de tudo, recuperar o monopólio estatal da autoridade. Significa impedir celulares, redes internas de comunicação e circulação de ordens criminosas. Significa separar perfis, impedir que presos provisórios convivam com lideranças de facção. Significa profissionalizar a gestão, fortalecer corregedorias, proteger agentes penitenciários e implantar mecanismos tecnológicos de controle. Significa, sobretudo, reconhecer que a prisão não é depósito humano: é espaço estratégico de soberania.
A reestruturação do sistema prisional não é obra de um governo, mas de um projeto de Estado. Exige investimentos, inteligência, integração entre forças de segurança e compromisso político raro no debate público brasileiro. Mas é a única forma realista de enfraquecer o crime organizado. Sem isso, o Brasil continuará repetindo o mesmo ciclo: grandes operações, manchetes ruidosas, prisões em massa — e facções cada vez mais fortes, operando com conforto administrativo por trás dos muros.
O país já perdeu décadas discutindo segurança pública olhando apenas para os tiroteios. É preciso olhar, enfim, para onde o poder criminoso realmente está. Retomar o controle das penitenciárias não é uma das soluções — é a solução matriz, sem a qual nenhuma outra funcionará.
Enquanto o Estado não recuperar o que perdeu dentro das prisões, continuará perdendo tudo o que tenta proteger fora delas.
 

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