Sensações de vazios na psicanálise contemporânea

A psicanálise contemporânea que, sobretudo, valoriza a essencialidade do “desenvolvimento emocional primitivo”, está bastante preocupada com esse emprego de termos como “vazios” ou “fluidez das relações sociais”. Há designações como vazios que se formam no psiquismo da criança quando, de forma intensa e permanente, falha a capacidade de maternagem, ou seja, a mãe não consegue prover minimamente as primárias necessidades físicas e psíquicas do filho. 
A falta extrema disso resulta em quadros clínicos diversos, como “autismo psicogênico”, isto é, esta criança vai se desligando do mundo exterior e manifesta uma ausência quase que absoluta de emoções, a ponto de parecer que leva unicamente uma vida vegetativa. Estes estados carenciais, autísticos não são exclusivos das crianças, sendo também encontrados em certos estados neuróticos de adultos, como psicoses, borderline, perversões, drogadições etc., constituindo o que vem sendo chamado de “patologia do vazio”. 
É essencial pensarmos que, “toda mente, ao nascer, necessita de uma outra mente para poder se desenvolver”, preconiza Antonino Ferro. Esse desenvolvimento se dá através de um jogo de projeções e introjeções. Angústias e sensorialidades primitivas são evacuadas na mente da mãe (identificação projetiva) e, depois de “tratadas e bonificadas” por uma mãe suficientemente boa” (Winnicott), são devolvidas à criança transformadas em elementos figuráveis ou “palatáveis” para o bebê. 
Poderíamos até pensar no termo “traduzido”. O bebê sendo planejado e desejado, antes da concepção, naturalmente passou por uma boa gestação. O ideal é que tenha uma boa “recepção” durante o seu nascimento e após o nascimento. A mãe aprenderá e se tornará mãe com o bebê ao colo. É muito importante que ela possa se permitir, que não sabe e, esperar, aguardar, permitir o não-saber é essencial. Não tem fórmulas, tampouco, cartilhas. Cada bebê é de um jeito. Tenho três filhos e todos em sua singularidade apresentou-se de um jeito. Minha primeira filha nasceu muito pequena, eu não sabia pegá-la, tive de aprender. O outro nasceu muito grande. Teve o outro que só queria dormir, eu ficava olhando sempre para ele. Certa ansiedade é normal no início, o próprio bebê sinaliza muitos aspectos que nos leva a pensar sobre essa singularidade. O ideal é que haja amor, paciência, acolhimento e uma mente “oca”, e não saturada de teorias. Deixe a mente vazia, aguarde, espere, juntos, em uníssono, irão se construindo um ambiente facilitador e um grande encontro.

Publicidade

Veja também