Dói.
E dói muito.
Mas não é no corpo.
O que exponho aqui não nasce do pessimismo. Nasce da necessidade de falar, de conversar sobre vida, morte e envelhecer. Sempre foram temas que me causaram angústia, mas depois dos 40, com a maturidade, confesso que se tornaram ainda mais presentes, mais silenciosos, mais profundos.
Desde muito cedo, entendemos que morrer é parte da vida. O modo e o momento não sabemos, mas sabemos que um dia ela chegará, como uma certeza discreta que nos acompanha. Ainda assim, essa consciência vem junto com o medo, com uma tristeza difícil de nomear. O que quase nunca pensamos é que envelhecer também dói.
Enquanto o olhar está voltado para nós, o desconforto é pessoal: a pele já não é mais como antes, os movimentos mudam, a vitalidade diminui. A imagem no espelho já não corresponde à memória que temos de nós mesmos. Um dia percebi isso: eu não era mais a mesma. Algo havia partido sem fazer barulho. Quase não vi, quase não percebi. Mas há um instante ainda mais duro: quando deixamos de olhar apenas para nós e passamos a enxergar o outro.
Num desses dias comuns, que não anunciam nada, olhei para meus pais, para meus tios, e vi o tempo neles. Vi o corpo mais lento, os traços diferentes, o cansaço que antes não existia. E isso me pegou: atingiu a memória de infância, as aventuras compartilhadas, as festas de fim de ano. Vê-los envelhecer não é só sobre eles, mas também sobre mim, sobre nós. É o tempo mostrando que segue, mesmo quando não estamos prontos para acompanhá-lo. E de repente me vi perguntando: quanto tempo ainda temos juntos?
Essa indagação dói, causa desconforto. Será que aproveitamos como deveríamos ou estamos só de telespectadores da vida?
Foi nesse momento que entendi, ou melhor, absorvi: o tempo simplesmente passa. E, passando, aproxima o fim, não como castigo, mas como caminho natural.
Dói perceber que estamos, todos, caminhando para lá... Por isso, precisamos falar sobre envelhecer, sobre morrer, não para temer, mas para compreender. Talvez o silêncio em torno desses assuntos seja o que mais nos machuca. Como diz Ana Claudia Quintana Arantes, em “A morte é um dia que vale a pena viver”, “o que você viveu não é tão importante quanto pensar ‘como’ você viveu ou ‘para que’ você viveu.” O medo existe. A saudade virá. Mas ainda há o agora e é aqui que tudo acontece. Por isso, vamos aproveitar e, é claro, conversar mais sobre tudo isso.