Síndrome de Estocolmo

OPINIÃO - Raul Borges Guimarães

Data 29/11/2020
Horário 05:20

Era um final de domingo e a Favela da Rocinha tinha gente saindo e entrando por todos os cantos. Estávamos chegando para mais um trabalho de campo do curso de Geografia da Unesp (Universidade Estadual Paulista) de Presidente Prudente na cidade maravilhosa. A primeira tentativa foi de subir de ônibus pela Estrada da Gávea, a única via que trafega veículos no morro. Numa das curvas muito acentuadas, o ônibus encavalou. Não subia... Não descia... e aquela confusão: caminhonetes que queriam passar, motos, muitas motos! 
Com muito esforço, o habilidoso motorista da universidade conseguiu retornar de ré até a base do morro e a comitiva de 40 unespianos teve de subir a pé até o salão paroquial da igreja onde ficaríamos hospedados. Colchonetes na cabeça, mochilas nas costas, panelas, mantimentos pendurados. Pense na confusão!
Eu fui ficando para o fim da fila com a preocupação de não deixar ninguém para trás. Foi nesta posição que percebi um sentimento que tomava conta de parte do grupo. Havia um medo de falar e olhar para o lado. Um certo sentimento de pânico tornava as pernas pesadas e a caminhada interminável. Não era para menos. Afinal havia alunos que nunca tinham visto o mar... muito menos tinham se hospedado numa favela. E a proposta era esta mesma. Conviver no cotidiano de uma grande cidade como o Rio de Janeiro, mas a partir do modo de vida de um favelado.     
Depois de alguns dias, os estudantes fizeram amizades na comunidade e eu comecei a ter outro tipo de problema. Quase ninguém queria sair do morro para fazer as visitas programadas no centro da cidade. Principalmente, os mais amedrontados começaram a se sentir em casa e foram tomados por um sentimento de ternura por aqueles que, no primeiro momento, foram reconhecidos como agressores. Eu estaria diante de uma espécie de Síndrome de Estocolmo?
Em agosto de 1973, numa agência bancária na Suécia, um assaltante se dirigiu a uma refém e lhe disse: “Nada vai acontecer com você”. O assalto durou seis dias e a refém começou a temer mais o que poderia ocorrer com os assaltantes, caso a polícia resolvesse invadir o banco, do que com sua própria segurança. Desde então, esta forma inconsciente da vítima agradar o agressor foi chamada de Síndrome de Estocolmo. Talvez o que nos une - a Rocinha do trabalho de campo, a Suécia do assalto há quase 50 anos e o Brasil da pandemia de 2020 - é este sentimento difuso, inconsciente, até mesmo um sentimento de amor ou amizade pelos nossos agressores. Afinal, para diminuir os danos de uma agressão, é preciso acreditar que a síndrome não existe, e que o amor e a amizade são verdadeiros. 
 

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