Stories da vida privada

OPINIÃO - Jair Rodrigues Garcia Júnior

Data 21/07/2021
Horário 04:30

"A vida do cidadão deve ser murada: o muro da vida privada, evidentemente. Mas o que tal muro demarca? Para quem vive atualmente não existe ambiguidade: de um lado, um porto de paz, refúgio familiar na essência, mas também local de eleição das amizades e das liberdades”. "Nada é privado na vida dos grandes, pois se vive de acordo com sua condição e não como gosta, num estado de servidão que a faz escrava de mil coisas". (“História da Vida Privada”, vol. 3, pág. 402)
Desde o final da Renascença (Século XVII), período descrito acima, muitas mudanças ocorreram na sociedade, em seus costumes e valores. Quando da produção dessa grandiosa obra de cinco volumes, o foro privado e íntimo da nobreza e dos burgueses pôde ser descrito a partir de textos, tratados de comportamento, pinturas, etc.
Desde o surgimento da primeira rede social virtual popular, o Orkut (2004-2014; o Facebook nasceu junto, porém, se popularizou depois), a divulgação do privado deixou de se limitar às celebridades nas revistas e colunas sociais dos jornais. Cada indivíduo ganhou o privilégio (ou servidão) de se divulgar 24h por dia nas redes sociais.
A era dos selfies, iniciada na década passada, foi uma evolução (?) dos registros para o bem e para o mal. Já reparou que alguns perfis têm seu “conteúdo” limitado às selfies e que há postagens de fotos e vídeos que até incriminam os próprios autores? Ao procurar emprego, cuidado, pois “sua rede é você”. 
Também para o bem e para o mal, a memória das redes é definitiva. Hoje, o trabalho de um historiador para um novo volume da obra mencionada no inicio seria facilitado ante a enormidade de informações. 
A história agora são os stories que apresentam os comportamentos contemporâneos do ler ao lazer, do comer ao exercitar, da estética às práticas sexuais. O fato é que a massa não deveria balizar o comportamento individual, porém a identidade de grupo (coletivo) e o ego (individual) são aspectos muito poderosos. 
Hoje o indivíduo é tomado pela sensação de que “não existe” ou de que “não fez” se não estiver registrado e visível nas redes sociais para os amigos ou seguidores curtirem. Também para o bem e para o mal, a memória das redes é definitiva. Arrepender-se e deletar nem sempre funciona depois que os amigos ou seguidores deram print. Por isso, não deixe de registrar os momentos de autoestima exagerada e de emoção, mas seja racional ao contar suas stories da vida privada. 
 

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