Surpresa Desagradável

Sandro Villar

O Espadachim, um cronista que dá nome ao touro: Bandido (ainda bem que os bandidos não têm chifres como o Bandido)

CRÔNICA - Sandro Villar

Data 26/04/2022
Horário 05:30

Tem sujeito que não pode ver um rabo de saia que logo dá um jeito de se aproximar da mulher, sem medir as consequências. Um cara assanhado - ou tarado mesmo -, quando se trata de saia, só dispensa padre de batina e escocês. Um famoso colunista de jornal tinha fama de Casanova, embora já fosse um Casavelha. Sabem como é: a idade chega para todos, exceto para a Vera Fischer. 
Ele – o colunista em questão – não podia ver mulher, ficava ouriçado e partia para a conquista. Como aquela vez no centro de São Paulo, depois de almoçar com diretores do jornal onde escrevia e onde desfrutava de enorme prestígio. Encurtando conversa: o nosso herói tinha um Ibope alto, quer dizer, era muito lido pelos leitores.
Depois do almoço num restaurante chique da Avenida São Luiz, que não sei se ainda existe, Dodô (chamemo-lo assim) se despediu dos diretores e foi dar uma volta para fazer a digestão. Logo depois de entrar na Avenida Ipiranga, deu de cara com uma baita loira, tipo Kim Novak, para os mais velhos, ou tipo Kim Bassinger, para a moçada contemporânea. 
Comparações não interessam nessa narrativa, mas que a loira era de fechar o comércio e a indústria lá isso era. Não só Dodô como também qualquer homem tentaria conquistar a mulher em questão, uma loira estonteante, dessas que deixam qualquer um tonto.
Como não era bobo nem nada, ele percebeu que a loira deu bola, enfim, deu a maior trela. “Esta está no papo”, deve ter pensado. Dodô se aproximou, puxou conversa e, papo vai papo vem, confirmou que a moça estava mesmo no papo. A mulher não fazia o gênero loira burra. Ao contrário, ela sabia das coisas e estava por dentro dos acontecimentos. 
Ficou encantada quando Dodô se identificou e, para espanto dele, ela o lia no jornal. Na verdade, o colunista conheceu uma fã de carteirinha, o que facilitou a conquista. Depois de uns dez minutos de prosa, ele fez a proposta nada indecente. Convidou-a para passar umas horas num drive-in que ficava em Interlagos. 
E aqui cabe um esclarecimento necessário: naquela época ainda não havia motéis, e conquistador que não tinha apartamento levava a mulher ao drive-in. Com o “sim” dela, concordando com o chamado hoje em dia de sexo consensual, Dodô ligou o carro e lá foi o casal desfrutar de umas horas de prazer. 
Assim que entrou no drive-in, Dodô esclareceu à moça que não podia ficar a tarde toda com ela, já que precisava voltar ao jornal para escrever o artigo do dia seguinte. Aí veio a atendente e colocou, em cada porta do carro, as bandejas dos drinques e salgadinhos E depois? Bem, aí a cuíca começou a roncar. Houve as preliminares de praxe, com mil beijos (está bem, deixemos por 999) e amassos.
Mas, na hora do pega pra capar, Dodô teve uma surpresa desagradável. Ao pôr a mão na Zona do Agrião, ele apalpou um “taco” ou uma “caixa de câmbio”, se vocês preferem tais epítetos para o bilau. Em suma, meus cupinchas: a “mulher” era um travesti. 
Transtornado, fora de si, ele enxotou o travesti, deu marcha à ré e saiu em disparada do drive-in, sem pagar a conta. Só que, ao passar pela Avenida Interlagos, notou que os transeuntes olhavam para o carro e davam sonoras gargalhadas. Em suma: as pessoas morriam de rir. 
É que na confusão, Dodô se esqueceu de retirar as bandejas e, com o equipamento, o automóvel parecia um avião prestes a decolar. Só depois de andar um bom trecho é que ele percebeu a mancada. Parou o carro, jogou as bandejas fora e foi para o jornal. 
Contou o episódio a um primo e, segundo o parente, Dodô está menos assanhado, mesmo que dele se aproxime uma loiraça, como aquela da Avenida Ipiranga. Afinal, as aparências enganam e “ela” pode ser ele, que ainda não fez operação para mudar de sexo.
 
DROPS
Quem não deve não treme.

A conta de luz dá choque até no eletricista.

Roma governava com espada e chicote e, agora, governa-se com fábrica de fake news.

Pimenta nos olhos dos outros é colírio.
 

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