Tolerar a frustração, eis a questão!

Estamos iniciando um novo ciclo, ano novo e novas demandas. Janeiro é o mês de conscientização da saúde mental. É muito importante pensar sobre nossa saúde, dar relevância aos aspectos emocionais, sobretudo, a saúde mental. Como andam os nossos pensamentos? Pensamos demais, agimos por impulso, atuamos sem reflexões nossos instintos? Somos operativos o tempo todo? Não lidamos bem com o “não tenho nada para fazer”? Precisamos mesmo, nos ocupar sempre? Preenchemos o tédio ou vazio, com qualquer coisa, para não suportá-lo? 
Bion, psicanalista, preconiza que “O vazio é a potência da forma”. É a partir das faltas, que origina-se o desejo. Onde anda o desejo se atualmente, estamos saturados e mergulhados no oceano de excessos?  Pais apressados realizam os desejos dos filhos que, na realidade, são deles próprios. Aceleram de acordo com as suas idealizações, antecipando possíveis sonhos embrionários dos filhos. Devemos estimular a criatividade, os sonhos, a iniciativa e a capacidade de pensar os pensamentos das crianças e adolescentes. Tolerar a frustração é o caminho em direção ao desenvolvimento. É o estímulo para a simbolização. Precisamos saber esperar a hora certa. 
O processo evolutivo constitui-se por passagem, transição, pontes e é preciso saber atravessar as “pontes”. O nascimento é um processo entre o estado aquoso para o gasoso. É necessário respeitar o tempo do bebê e é importante uma mãe suficientemente boa. A hora do parto, sair do universo “perfeito”, realmente é uma mudança catastrófica, mas necessária. Caso a mãe queira colocar o peito, cheio de leite na boca do bebê, onde ele ainda não esteja preparado, engasgar-se-á. 
Balint (psicanalista) postula que a falha básica é resultado de uma deficiência ambiental precoce na relação primária. Essa falha cria um vazio estrutural que o individuo tenta desesperadamente preencher através de padrões de relacionamento regressivos. A análise deve proporcionar uma nova chance de acolhimento para que essa necessidade fundamental seja elaborada. O acolhimento, ambiente em harmonia e em equilíbrio são muito importantes para diminuir a ansiedade, depressão, transtornos de um modo geral. Experienciamos imaturidade e rapidez em direção aos diagnósticos ao mesmo tempo um excesso de medicalização. 
Lembro nesse momento de Freud, pai da psicanálise e um grande cientista, preocupado com o mal-estar dos seus pacientes, buscava de forma incansável, uma maneira de amenizar o sofrimento humano. Foi quando uma paciente o despertou, pedindo para ele: Deixe-me falar. A importância da escuta faz toda a diferença.  
Finalizando, divido com vocês, um trecho da música “Esquadros”, de Adriana Calcanhoto: “Eu ando pelo mundo, e os automóveis correm pra quê? As crianças correm pra onde? Transito entre dois lados, de um lado eu gosto de opostos. Exponho o meu modo, metro. Eu canto pra quem? Pela janela do quarto, pela janela do carro, pela tela, pela janela, quem é ela? Eu vejo tudo enquadrado. Remoto controle... Eu ando pelo mundo prestando atenção em cores que eu não sei o nome. Cores de Almodóvar, cores de Frida Kahlo, cores. Passeio pelo escuro, eu presto muita atenção no que meu irmão ouve. E com uma segunda pele, uma casca, uma cápsula protetora, eu quero chegar antes pra sinalizar o estar de cada coisa, filtrar seus graus. Eu ando pelo mundo divertindo gente, chorando ao telefone. E vendo doer a fome nos meninos que têm fome”.

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