Vamos tomar um café?

Giselle Tomé

CRÔNICA - Giselle Tomé

Data 18/06/2026
Horário 06:30

Ontem marquei um café com uma amiga. Como acontece com frequência na vida adulta, começaram a surgir os imprevistos de sempre. Um compromisso daqui, um atraso dali e, por pouco, íamos desmarcar mais uma vez.
Foi quando ela disse:
— Vamos porque se deixarmos para depois, nunca iremos.
Na hora, lembrei de uma grande amiga que perdi há muitos anos. Daquelas pessoas que, até hoje, em muitos momentos da minha vida, me fazem pensar: "Se ela estivesse aqui..."
Eu tinha pouco mais de 20 anos. Ela era mais velha, casada, mãe de três filhos. Nossa amizade começou por causa do trabalho, mas rapidamente se transformou em algo muito maior. Ela virou minha conselheira, minha confidente, uma irmã mais velha que a vida colocou no meu caminho.
Ela adorava me ligar e perguntar:
— Vamos tomar um café?
Naquela época, eu entendia o convite ao pé da letra. Achava que era simplesmente sair para tomar um café. Hoje percebo que nunca foi sobre isso. Era sobre sentar, conversar, colocar a vida em dia, ouvir e ser ouvida. Era sobre ter tempo para o outro. E ainda bem que eu, muitas vezes, inicialmente contrariada, sempre ia.
Nossos encontros eram leves. Ríamos muito, falávamos de tudo e brincávamos que éramos o Pink e o Cérebro (de um desenho infantil que gostávamos). Ela era sonhadora, generosa, acreditava nas pessoas. Eu sempre fui mais prática, um pouco ranzinza, querendo resolver tudo.
No começo da minha carreira, qualquer problema parecia o fim do mundo. Ela me ouvia com uma paciência enorme, dava risada dos meus dramas e, sem grandes discursos, conseguia fazer tudo parecer mais simples. Talvez fosse a experiência. Talvez fosse a sua luz que iluminava tudo ao redor. O fato é que estar perto dela sempre fazia bem. Ah, como eu gostaria de tomar mais um café com ela.
Contar tudo o que aconteceu nesses anos. Falar das mudanças, das alegrias, das dificuldades e ouvir o que ela teria a dizer. Sinto falta de sua alegria, da tranquilidade e da forma como enxergava a vida.
Ela também adorava água com gás. Eu achava um desperdício pedir aquilo. Ela insistia:
— Experimenta. É uma delícia.
Hoje não vivo sem. E toda vez que tomo um copo de água com gás lembro dela e dou um sorriso. É engraçado como algumas pessoas continuam presentes justamente nas coisas mais simples.
Hoje, quando alguém me chama para tomar um café, só deixo de ir se realmente não puder. E muitas vezes sou eu quem faz o convite. Nem sempre dá certo. Às vezes fica naquele "vamos marcar", que acaba nunca acontecendo.
Também percebo que, no meio da correria, nem sempre consigo parar para ouvir um amigo com a calma que ele merece. Talvez por isso a frase que ouvi ontem tenha feito tanto sentido:
"Se deixarmos para depois, nunca iremos."
A vida passa rápido. E a gente vive acreditando que semana que vem será mais tranquila, que no mês que vem vai sobrar tempo, que depois a gente marca. Nem sempre marca.
Hoje entendo que um café quase nunca é só um café. É uma desculpa para estar junto. Para conversar. Para rir. Para ouvir alguém ou simplesmente fazer companhia.
São esses encontros, que parecem tão comuns, que acabam virando lembranças para a vida inteira. A vida nos traz surpresas dolorosas como perder uma amiga, mas, também outras boas como ganhar novas. E por isso que ontem fiz questão de ir e de contar essa história para que a minha companhia não se esquecesse que: se alguém te chamar para tomar um café e você puder ir, vá. Pode ser só uma hora do seu dia, mas também pode ser uma hora que você vai guardar para sempre.
 

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