Vida reinventada

OPINIÃO - Raul Borges Guimarães

Data 17/04/2022
Horário 06:00

Eu desconheço outra festividade litúrgica que me toca mais profundamente do que a Páscoa. Ela representa um misto de diferentes culturas e de antigos conhecimentos da natureza que torna a celebração ainda mais especial. Talvez seja esta a razão que geralmente neste período do ano eu tenha colecionado experiências marcantes pelas minhas andanças mundo afora. Nunca vou esquecer-me do ofício da meia noite de um Sábado de Aleluia que eu participei numa igreja anglicana da cidade britânica de Bristol, quando todas as velas e luzes foram apagadas para que os inúmeros fiéis aguardassem no escuro e em profundo silêncio a proclamação da ressureição do cordeiro divino. Em outra ocasião eu vi na Grécia, logo ao amanhecer de um domingo de Páscoa, um diácono espalhar folhas de louro e pétalas de flores na porta da capela ortodoxa para simbolizar a vitória da vida sobre a morte. “Christos Anesti!” (Cristo ressuscitou), dizia ele. E que belo o cantochão evocado pelos clérigos, em outra cena vivida lá na Lituânia, preenchendo o interior da abadia com um cântico de pura paz e alegria.

                De fato, a renovação do ciclo da vida é um ato de fé muito antigo. No Egito, o tradicional Sjam El Nessim ou Dia da Primavera é comemorado há mais de 3 mil anos. A comunidade local ocupa as ruas para festejar a renovação da vida com um almoço especial à base de peixes e ovos. Por sua vez, a Páscoa Judaica (denominada de Pessach, passagem) relembra a libertação do povo hebreu da escravidão no Egito. Desde o Concílio Ecumênico de Nicéia, convocado pelo Imperador Constantino no ano de 325, a Páscoa tem sido comemorada sempre nos domingos que seguem a Lua Cheia do equinócio da primavera no Oriente, ou seja, depois do dia 21 de março. Sim, por trás da data da Páscoa há muita história e também astronomia.

                A combinação da primavera com a Lua Cheia é um convite ao renascimento de nossas forças, à renovação da esperança por dias melhores, ao renascimento da nossa vontade de se reinventar. Momento certo para meditações e rituais de fortalecimento da fé. Ter fé é acreditar no intocável, no inatingível. Claro que não devemos confundir a fé com o fanatismo por salvadores da pátria ou com a descrença na força transformadora da ciência e das mãos dos próprios seres humanos…

                Pelo contrário, a fé é a confiança de que a transformação do mundo está em curso e pode dar certo. A fé é apenas o começo para a reinvenção de muitas vidas.

 

"Porque a vida, a vida, a vida

a vida só é possível

reinventada” (Cecília Meireles)

 

 

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