Viver na praia é só mais uma ilusão

Roberto Mancuzo

CRÔNICA - Roberto Mancuzo

Data 10/02/2026
Horário 05:30

Basta ficar dois dias na praia para que 90% das pessoas pensem: "Eu devia morar aqui". Mas na verdade, não é bem sobre morar na praia. É que naquele momento, todos os problemas ficaram para trás e quando voltar eles estarão lá. 

Acho que as pessoas tentam fugir do seu mundinho, da sua vida prosaica quando na verdade deveriam encontrar uma forma de "viver na praia" em qualquer lugar porque isso significaria que ela está feliz.

A primeira manhã na praia é sempre uma epifania. O despertar vem com o som das ondas, não com o alarme do celular. O café tem gosto diferente, até porque talvez se estiver bem em frente ao azul profundo do oceano, seja tomado sem pressa, observando o horizonte onde céu e mar se beijam. 

Logo em seguida, os pés descalços na areia parecem reencontrar uma verdade esquecida: aquela da infância, do pé no chão, das brincadeiras, de poder tirar o sapato porque você está em casa. 

E nesses instantes, surge aquela pergunta que é mais suspiro do que dúvida: "Por que não vivo aqui sempre?"

O segundo dia aprofunda a ilusão. A padaria fica logo ali e o açougue também. Cumprimentamos o vendedor de coco pelo nome, descobrimos o melhor lugar para ver o pôr do sol. Criamos rotina, e isso nos faz sentir donos daquele pedaço de paraíso. 

A vida na cidade, com engarrafamentos, obrigações e correria, parece um pesadelo distante que já passou, uma escolha equivocada que hoje poderia ser corrigida com uma mudança de endereço.

Mas deixe quebrar um pouco este encanto. A praia tem um segredo que só se revela aos que não são seus moradores: ela nos empresta sua paz por um tempo limitado. 

Sim, o que sentimos não é o desejo real de viver entre areia e sal, mas a súbita ausência do peso que carregamos em nossos ombros urbanos. Deixamos para trás as contas, as expectativas, as pequenas irritações do dia a dia. 

A praia não nos transforma, ela apenas nos desocupa.

O verdadeiro desafio não é arrumar as malas e se mudar para o litoral. É descobrir como trazer um pouco de mar para o apartamento no 17º andar. Como encontrar aquele ritmo de onda quebrando no meio do trânsito. Como olhar para o céu entre os prédios e enxergar o mesmo infinito que se via na orla.

Para mim, "viver na praia" em qualquer lugar que seja neste nosso litoral seria a arte de carregar dentro de si aquela sensação de tempo expandido. Seria manter os pés descalços na alma mesmo usando sapatos sociais. Seria ouvir o chamado do mar mesmo no silêncio do elevador. Não se trata de geografia, mas de estado de espírito.

A lição da praia é justamente essa: nos mostrar que a felicidade não está em algum lugar, mas em um outro lugar que podemos visitar sem precisar de passagem de avião ou reserva em pousada. 

Basta lembrar que em nós também há maré, também há horizonte, também há a capacidade de começar de novo a cada amanhecer. As nossas ondas vêm e vão da mesma forma e quando voltamos "para a vida real", os problemas realmente estarão lá esperando, mas quem sabe não estejam um pouco menores, vistos à luz do sol que ainda brilha em nossa pele? 

Quem sabe não possamos enfrentá-los com um pouco mais de sal no sangue e areia entre os dedos da alma?

A praia, no fim das contas, não é um lugar para onde fugir. É um espelho que mostra como poderíamos ser em qualquer lugar: mais calmos, mais presentes, mais inteiros. E essa talvez seja a verdadeira mudança de endereço que precisamos fazer. Não no mapa, mas dentro de nós.

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