Você tem que dar conta! Pare de mi-mi-mi!

Roberto Mancuzo

CRÔNICA - Roberto Mancuzo

Data 31/08/2021
Horário 06:00

Duas frases, duas “leis” contemporâneas e dois caminhos para o abismo.

Lei do “Você tem que dar conta”

Vamos ser sinceros: esta história de fazer o tempo render a qualquer custo e ter que ser uma pessoa muito mega produtiva nunca chegou tão perto do limite e ainda vai acabar com o que resta de nossa sanidade mental. 
Não sei exatamente quando esta lei foi exatamente promulgada, mas ganhou contornos muito mais sádicos ainda durante a pandemia porque além de termos que ser um canivete suíço full time, ainda precisamos nos manter vivos.
Agir dentro desta lei é ser muito ativo no trabalho, um primor em casa, um anjo com família e amigos, além de ainda atuar na sociedade em uma ONG. 
E não agir dentro da lei é ser punido. 
Primeiro, com o efeito das “dívidas sociais”. 
Em outras palavras, por estarmos o tempo todo online, a gente acumula dívidas com um monte de gente. Há sempre algo a entregar, alguém para responder, alguém para visitar, tomar um café. Há sempre um trabalho que bateu o deadline e outro que já passou desta linha faz tempo. Há também uma desculpa aqui, outra ali e o que não há mesmo é como ficar bem.
Daí, a gente piora fazendo o quê? Mais dívidas: “Vamos marcar uma hora”, “A gente precisa se encontrar, né, amiga?”, “Preciso tanto te ver”, “Final de semana a gente se fala?”. 
Em segundo lugar, somos punidos por nós mesmos ao olhar para o lado e termos a falsa sensação de que todo mundo está dando conta, quando na verdade não estão. Estão mesmo é igual a nós e investem forte na segunda lei desta história.

Lei do “Para de mi-mi-mi”

Se ninguém reage, eu vou reagir e ser chamado de “estressadinho”? Não, né? Custo social muito alto, aliás, porque o parágrafo segundo da lei é “Não reclame”.
Por pior que você seja, por mais assustado que esteja, tudo pode ser rotulado de “mi-mi-mi”, gente que não está acostumado com a dureza da vida, que “não sabe o que é curar um machucado com merthiolate”.
Daí, dá-lhe a gente se adaptar. Porque é bem isso que o ser humano sabe fazer de melhor: se ajustar às realidades. Reclama, mas se ajusta. Acha um saco, mas dali a pouco está lá, cumprindo novas metas, passando por cima de resoluções já feitas e aceitas e ficando maluco de novo. 
Só que a adaptação é o caminho mais curto para o estouro da boiada. Ao aceitar e se adaptar a tudo, o estado de esgotamento mental e físico é tão grande que a sensação de desmaio iminente e as dores físicas parecem ser as companheiras do dia todo. Sem falar no desequilíbrio hormonal, que se já tira de todos nós a vontade de tomar um sorvete, imagine o resto.
Com nossos hormônios enlouquecidos e a capacidade autônoma do corpo beirando o abismo, surge a exaustão. Não é cansaço porque se fosse resolveríamos com meia dúzia de horas em paz, em algum lugar afastado. 
Soluções? Muitas, claro. Executáveis? Poucas, mas talvez importantes.
Não é descansar, mas renovar práticas e atitudes mais sinceras porque estamos exaustos de sermos heróis infalíveis. 
Não é só falar com alguém, porque a gente precisa não só colocar para fora o que dói, mas precisa sentir mais. 
Não é só acolher, mas também ser acolhido de vez em quando, com a sensação boa de que nem sempre nós vamos dar conta de tudo e está tudo bem com isso. 
 

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