Wolbachia: investimento estratégico no futuro da saúde pública

EDITORIAL -

Data 25/01/2026
Horário 04:02

Em um país que convive historicamente com epidemias de dengue e outras arboviroses, toda iniciativa baseada em ciência, evidência e cooperação institucional merece atenção — e, sobretudo, continuidade. A biofábrica do método Wolbachia inaugurada em julho de 2025, no Jardim Everest, em Presidente Prudente, representa exatamente isso: um investimento estratégico no futuro da saúde pública.
Segundo a WMP Brasil (World Mosquito Program), responsável pela iniciativa, a soltura dos chamados “wolbitos” — mosquitos Aedes aegypti infectados com a bactéria Wolbachia — encontrava-se na 21ª semana em 19 de dezembro, de um total previsto de 28 semanas. Trata-se de um processo gradual e criterioso, cujo objetivo não é eliminar o mosquito, mas transformar a população local em uma aliada no combate às doenças. Ao se reproduzirem com os insetos da região, os wolbitos estabelecem, ao longo do tempo, uma população incapaz de transmitir vírus como dengue, zika, chikungunya e febre amarela urbana.
É preciso destacar um ponto fundamental: os resultados não são imediatos. A própria WMP esclarece que os efeitos concretos do método costumam ser observados cerca de dois anos após o encerramento das solturas. Isso significa que os benefícios esperados para Prudente devem se tornar mais evidentes apenas em 2028. Em tempos de imediatismo e cobranças por soluções rápidas, esse dado exige maturidade do poder público e compreensão da sociedade.
A experiência acumulada em outras cidades, no entanto, é animadora. Na inauguração da biofábrica, a gestora de projetos do método no Brasil, Ana Carolina Rabello, apontou reduções de pelo menos 70% nos casos de arboviroses, especialmente dengue, nos municípios já contemplados. Não se trata de promessa, mas de resultados mensurados. Importante lembrar ainda que a Wolbachia está presente naturalmente em cerca de 60% dos insetos do planeta e não causa qualquer dano aos seres humanos. O método, como reforçado pela WMP, não envolve modificação genética: é seguro, eficaz e natural.
A instalação da biofábrica em Prudente também simboliza um modelo bem-sucedido de articulação entre diferentes esferas. A parceria entre Ministério da Saúde, Fiocruz, Governo do Estado e Prefeitura resultou em uma unidade moderna, com cerca de 400 metros quadrados, totalmente equipada e capaz de executar praticamente todo o ciclo de produção dos mosquitos, restando apenas o envio dos ovos a partir do Rio de Janeiro.
Mais do que um avanço tecnológico, a biofábrica representa uma mudança de paradigma. Combater arboviroses não depende apenas de inseticidas, mutirões pontuais ou da responsabilização individual da população. Exige inovação, planejamento de longo prazo e confiança na ciência. O método Wolbachia oferece tudo isso.
Cabe agora garantir que o projeto seja mantido, monitorado e ampliado. A saúde coletiva não pode ser refém de descontinuidades políticas ou da impaciência diante do tempo necessário à ciência. O futuro que se desenha em Prudente pode — e deve — servir de exemplo para todo o país.
 

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