José Reis

Foto: José Reis

Ariane Sorriso Carnelossi

“Eu sempre deixei claro que meu único e exclusivo objetivo é entrar no UFC”

  • 26/06/2019 08:40
  • THIAGO MORELLO - Da Reportagem Local

No começo de 2019, ela foi eleita a lutadora do ano pelo Prêmio Osvaldo Paquetá, em Curitiba. Ela entende de jab, cruzado, low kick (canelada alta), joelhada, mas também sabe o que é ser mulher e crescer mostrando o seu talento no meio das artes marciais. Ariane Sorriso Carnelossi, 25 anos, lutadora de MMA (mixed martial arts), é natural de Presidente Prudente, mas hoje já é conhecida no Brasil todo e também lá fora.

Atualmente, já com alguns anos de carreira e títulos no currículo, ela não se acanha em dizer que, assim como sempre deixou claro, o “único e exclusivo objetivo” que possui é conseguir ingressar no UFC (Ultimate Fight Championship), “para mostrar todo o trabalho que é” desenvolvido em Prudente nas artes marciais.

Porém, antes de tudo isso, e de chegar ao patamar que está hoje, a lutadora também teve suas histórias e o que enfrentou para construir sua carreira. E não somente histórias, mas dias difíceis, dificuldades, enfrentar reação da família e até mesmo pensamentos que poderiam culminar na desistência, mas que, felizmente, não chegou a tal ponto. Ademais, assim como ser mulher é difícil diariamente, ela também mostra como foi começar em um esporte que, anteriormente, era totalmente dominado pelo público masculino.

E para conhecer ainda mais os relatos de Sorriso, o jornal O Imparcial caiu no tatame para um bate-papo com a lutadora, a fim de ouvir desde os primeiros passos da prudentina no mundo da luta, além dos sonhos que ainda possui. Confira na íntegra:

 

O Imparcial: Como surgiu o seu interesse pela luta e de que modo acabou transformando isso em uma profissão pra você?

Ariane: Desde criança eu sempre fui de praticar bastante atividade física. Mas, eu jogava futebol, na verdade, e não gostava e nunca me interessei por luta. Mas, aí eu fui crescendo, os anos passando, e na correria de faculdade e trabalho, ficou mais difícil conciliar os treinos do futebol e tive que parar. Foi quando uma amiga minha, isso com 17 anos, me chamou para praticar muay thai. Eu me interessei e foi dando certo. Até hoje, né (risos). Aos poucos, eu vi que realmente era algo que eu queria fazer e viver disso. Era o que me fazia e me faz feliz.

 

Ao contar para sua família que você queria realmente transformar seu hobby em profissão, como foi a reação deles?

Enquanto eu só praticava o muay thai, minha família me levava, e sempre me apoiava. Na verdade sempre apoiou e continua apoiando. Mas quando eu comecei a disputar os campeonatos internos de muay thai, eu comecei a me sair bem. Tanto que meu treinador, o Hugo, me colocou no jiu-jitsu, que é a parte de chão, já pensando em disputar o MMA. E nisso eu fui gostando e vendo que tinha jeito pra coisa. Foi quando eu contei pra eles que era isso que eu queria para minha vida. Eles estranharam, lógico, ficaram receosos, como qualquer um. A fala era sempre que era uma coisa muito violenta, e tudo mais. Mas, continuaram me apoiando normalmente. E hoje isso já mudou completamente. Tanto que, sempre que vou competir fora, por exemplo, eles dão um jeito de ir. Eu até brigo e falo que não precisa, por conta dos gastos e tal, mas eles sempre dão um jeito de acompanhar e mostrar esse apoio. Virou minha maior torcida já (risos).

 

Como é ser mulher dentro do MMA?

No começo, o muay thai era uma arte marcial que pouca gente fazia e, quem fazia, era bem mais o público masculino. Então, quando eu comecei, sofria bastante preconceito. Isso era mais nítido ainda nos campeonatos, sabe? Porque a gente chegava para competir e as pessoas só queriam ver lutas de homens, na verdade. Mas, graças a Deus, o Brasil está sendo bem representado até mesmo lá fora e as pessoas apoiam, fazendo com que esse cenário fosse mudando. O preconceito hoje existe ainda, mas não é muito mais. As coisas mudaram, até porque as mulheres estão fazendo as melhores lutas da noite. Para homem ainda é mais fácil, mas isso não impede. E, cada um tem que fazer o seu trabalho, né. Um pouco de promover essa mudança vem da gente. Se você faz bem, as pessoas te veem lutando e você vai crescendo, é isso que vale.

 

Em algum momento, construindo sua carreira, houve algum acontecimento que lhe fez pensar em desistir? E como foi?

Não por conta de lesões ou medo, pelo menos, que é o que muita gente pensa ou espera. Mas, as dificuldades na hora de conseguir apoio é uma coisa que faz a gente pensar assim, como qualquer atleta em início de carreira. Existem muitos eventos que eles não pagam as despesas e, muitas vezes, eu tinha que tirar do próprio bolso. Principalmente no começo, quando eu não era muito conhecida. Então, foi uma dificuldade muito grande.

 

Sua rotina de treinos, competição e aulas são divididas de qual forma?

Eu treino três vezes ao dia, além de dar aula de muay thai na academia. Já em relação à dieta, eu mantenho todos os dias, mas não é algo “bem regradinho”, porque muda bastante. Conforme vai chegando alguma competição, dois meses antes, por exemplo, tem que fazer corte de peso e tudo mais. Mas eu estou numa fase, que até mesmo o Hugo fala, que eu preciso estar sempre preparada, caso surja uma oportunidade de lutar fora. E é legal falar sobre o fato de eu dar aula, que vem uma molecada treinar, que sempre fala que é fã, que me acompanha. Isso é muito prazeroso e serve como um gás a mais também.

 

E como professora, qual a rotina de quem vai até você para aprender mais sobre a arte marcial?

Na academia, nós temos uma rotina diferente e dividida entre os praticantes e os competidores. E para quem está começando e quer crescer na modalidade, os treinadores deixam bem claro que, se preciso, vai falar mais grosso e tem que saber ouvir. Porque vai além da prática, do tatame. Tem disciplina. O desrespeito fica lá fora. E se a intenção é virar um competidor um dia, nós tentamos ser para ele um espelho realmente, mostrando uma boa postura e incentivando.

 

Como você lida com a questão de algumas pessoas verem as artes marciais somente como algo violento?

Isso é muito comum mesmo. Existem muitos pais que chegam aqui com as crianças, os filhos que querem fazer muay thai, já falando dessa falsa violência. O nosso trabalho é mostrar que não é dessa forma. Às vezes a gente acaba sendo meio chato, meio rígido, como professor, mas é pra mostrar que existe uma disciplina, uma hierarquia dentro do muay thai. É algo que deve ser respeitado. E até hoje nunca tivemos um problema grande com aluno não. Sempre conseguimos repassar isso e mostrar que existe todo esse lado da disciplina. É igual a gente fala, tudo que te interfere no treino vai interferir na luta e na vida. Então, se você consegue se concentrar, nos treinos, prestar atenção, não encarar como violência e desenvolver um trabalho que planejou, vai dar certo.

 

E qual a dica que você dá para quem está começando a treinar e quer evoluir profissionalmente ou tem vontade de fazer?

Primeiro saber lidar com as críticas. Muita gente hoje, mesmo que já seja menos, critica muito esse negócio de lutar. Você tem que se perguntar se isso é algo que quer. Pensando em profissão, se está com dúvida, faça uma ou duas lutinhas mais simples. E se for isso mesmo que quer, tem que focar totalmente nisso. Tem que abrir mão de muita coisa, como festas, parte de vida social e se dedicar. Mas no final vai valer a pena. Agora se quer praticar, procure uma academia, converse com quem sabe e assista a uma aula para ver como realmente funciona, e não se basear na fala dos outros.

 

Nas competições, aquela encarada, aquela rivalidade que se vê na hora de pesar, ela existe e vai além?

Aquela provocação que todo mundo vê é mais marketing mesmo. É mais pela graça, pra deixar o público instigado e brincar mesmo. Eu, pelo menos, nunca tive problema com ninguém por causa disso. Até hoje mesmo, às vezes, a gente faz amizade com adversários, conversa depois. É claro que dentro do tatame eu vou querer vencer e ela também. Assim como tem gente folgado em todo lugar. Mas eu sempre levei na esportiva, como uma profissão e mantendo o respeito, agradecendo o adversário. E lá dentro é puro foco. A galera ainda pergunta depois de uma luta: “Ah, você escuta a gente gritando?”. E eu sempre falo que não. Naquele momento você só escuta a voz do treinador. É só você e a pessoa ali, como se só tivesse vocês duas no ginásio.

 

E dentro desse espírito de campeonatos e lutas, qual história já te marcou bastante, ou algum momento especial que você não esquece?

Teve uma luta que eu sempre falo dela. Foi em um evento chinês, mas que ocorreu no Brasil. Eu estava com uma lesão e não estava na minha melhor forma. Na época, eu não tinha um cartel muito grande para estar nesse evento. Mas o dono da equipe que eu competia disse “não, pode colocar ela pra lutar sim”. E foi muito difícil porque eu não conseguia treinar. Eu não conseguia treinar nem jiu. Eu estava numa rotina bem técnica e nada tática. E era um evento muito enorme, que eu nunca tinha lutado. Tanto que eu ainda olhava e pensava: “Meu Deus, o que estou fazendo aqui? Eu vou perder” (risos). Eu tive muito medo. Era a minha quinta ou sexta luta e a única coisa que estava na minha cabeça era que aquele dia não era meu dia. Mas eu fui. E quando chegou o segundo round consegui nocautear a chinesa e vencer. E foi através desse evento que comecei a ficar mais conhecida. As pessoas reconheceram mais meu trabalho, começaram a me seguir. Isso entre 2015/2016, não me lembro muito bem. Mas foi um divisor de águas pra mim. Ali, quando eu tive o maior medo, ainda consegui vencer. Foi legal e emocionante.

 

Hoje, qual a coisa que você ainda quer conquistar?

Eu sempre deixei claro que meu único e exclusivo objetivo é entrar no UFC. Eu quero chegar lá e mostrar para o mundo todo o trabalho que eu faço e que fazemos aqui em Presidente Prudente. Muita gente sonha em estar lá. E, para mim ,seria uma grande realização.