Abrir espaços para a oração (2)

OPINIÃO - Sandro Rogério dos Santos

Data 16/06/2019
Horário 08:10

A oração consciente abre-nos para Deus e coloca-nos em sintonia com as outras pessoas e com toda a criação. Ela deve partir sempre do chão da própria vida, isto é, da realidade de quem reza ampliando o seu desejo, movido pela insatisfação – porque ela nasce de nossa pobreza. Oração é uma conversa familiar, um papo entre amigos, uma abertura de coração e de espírito para aquele que dá sentido à vida. Santo Inácio de Loyola ensinou que “não é o muito saber que sacia e satisfaz a alma, mas o sentir e degustar as coisas internamente” (EE 2). É preciso, portanto, permitir-se orar.

O terceiro ponto desse processo é a luta, como a de Jacó com o anjo. Existe nela um componente de decisão, de esforço e de empenho, de paciência e de trabalho, disso que a tradição bíblica chama ‘clamor’ ou ‘gemidos’ (Rm 8,27) e que alcança sempre as entranhas de Deus (cf. Ex 3,7).

Conforme Dolores Aleixandre, RSCJ, a oração cristã é necessariamente ‘perturbada’ pelas situações humanas de conflito e sofrimento intolerável, pelo clamor de todos os fragilizados pelo mal, de todos os empobrecidos e abandonados da terra. O orante vai aprendendo, como Moisés, a manter-se diante de Deus ‘na brecha’ (Sl 105/106,23), arcando com tudo isso e sabendo que se trata não de despertar a atenção ou o interesse de Deus pelos que sofrem, mas de deixar-se contagiar por sua solicitude para com eles, escutando dele a pergunta que mexe com nossa indiferente frieza: “onde está teu irmão?” (Gn 4,9).

Insistir, permanecer, clamar, esperar são verbos edificados sobre a rocha de uma convicção com muito de paradoxal: é preciso dispor-se e preparar-se para o mais gratuito e aquilo que nos é presenteado sem o concurso de nossos méritos é atraído também pela violência de nossa espera apaixonada. Aprender a orar é graça e, ao mesmo tempo, um processo que requer esforço, disciplina, trabalho para unificar as energias dispersas, aceitação de que as atitudes essenciais para a oração não nascem em um momento e se perdem depois, mas tomam corpo na rede das relações humanas.

Preparamo-nos também para a oração quando nos esforçamos para nos manter fieis e fraternos, quando estamos dispostos a conceder aos outros tempos e ocasião de mudança. Assim irá crescer nossa capacidade de abertura, escuta e respeito diante do mistério dos outros; seremos mais capazes de acolher a Deus, de deixá-lo entrar em nossa vida incondicionalmente e sem medos, de permanecer diante dele também quando ele nos pareça ausente. Aprender a orar é permanecer nesse combate; é aguentar como uma sentinela, na intempérie da noite, até que chegue a aurora; é adentrar-se sem medo na nuvem que oculta, ao mesmo tempo em que revela uma presença que nunca pode ser dominada.

Orar é manter-se no meio do lago, embora o vento seja contrário, até que, de madrugada, alguém deixe ver seu rosto e ouvir sua palavra. É-nos pedido que não deixemos de remar esforçadamente enquanto aguardamos, com tensa vigilância, que o vento do Espírito desfralde por fim nossas velas com o “Abba, Pai!” que sussurra em nós. Ao orar, insista e permaneça; também peça a afinidade com Jesus, esteja disponível a experiência d’Ele.

Seja bom o seu dia e abençoada a sua vida. Pax!!!

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