Mentiras, versões e lorotas

OPINIÃO - Gaudêncio Torquato

Data 03/06/2020
Horário 04:38

De onde parte essa onda de fake news, versões, simulações e dissimulações que se espraia pela paisagem no meio da epidemia? Nunca se ouviu um disse me disse tão farto quanto este do repertório de invencionices que usa as redes sociais, gravações e vazamentos de conversas, edição de vídeos, envolvimento de policiais, de juízes e procuradores.

Fragmentos do que se viu ouviu nos últimos dias: Bolsonaro tentando interferir no cotidiano da PF; uma desastrada reunião, em 22 de abril, farta de palavrões; hordas bolsonaristas agredindo jornalistas, portando faixas com dizeres desrespeitosos contra os Poderes Legislativos e Judiciário; pedidos de prisões para ministros do Supremo; ações policiais sob viés político, enfim, uma profusão de informações misturadas com falsidades. 

Onde estará a verdade? Ou, para ser mais preciso: o que é verdade? Vamos à análise. O fingimento faz parte da nossa cultura, e se mostra forte nesses tempos de polarização, quando adversários se atracam nas redes sociais desfechando punhaladas recíprocas. O caráter nacional, como é sabido, é povoado de fingimento.

Mas a esperteza não se restringe aos atores políticos. Faz parte do cotidiano das pessoas. Os comportamentos na esfera política costumam infringir normas, coisa que herdamos do passado. A clonagem na nossa cultura chega, hoje, ao mais adiantado grau de sofisticação. Nos últimos tempos, mergulhamos em um oceano de meias verdades, mentiras e lorotas. Estamos diante da maior escalada de pistas falsas de nossa história. Imensa confusão invade as mentes.

E para deixar por instantes esse momento de angústia que passamos, na esteira de uma das maiores tragédias de nossa história, fecho o texto com uma historinha contada por Sebastião Nery envolvendo José Maria Alkmin, a raposa mineira, mestre da arte política. 

Um correligionário de Bocaiúva fica meio “lelé da cuca” e aparece, sem eira nem beira, no gabinete do ministro da Fazenda, ainda no Rio de Janeiro, onde lhe pede inusitada colaboração.

– Dr. Zé Maria, eu quero ir à lua e preciso da ajuda do senhor, diz o visitante.

– Isto não é problema, diz Alkmin, dando asas à imaginação do conterrâneo. Dou-lhe o apoio de ministro e correligionário. Existe um pequeno e contornável problema, que é de definição, e só depende do amigo.

Alkmin continua:

– Você sabe que há quatro luas: nova, crescente, minguante e cheia. Agora, compete a você escolher qual das luas o nobre amigo deseja visitar, pois o apoio está dado.

Diante de um atônito conterrâneo, o ministro levanta-se da poltrona, estende a mão para a despedida e afirma, olhando no fundo dos olhos do eleitor:

– Me procure quando você definir!

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