Paulo Miguel: um olhar revelador

Além das técnicas, em sua vasta produção fotográfica, ele apresenta a alma de quem tem o diferencial estabelecido no seguinte tripé: perspicácia, sensibilidade e visão periférica

PRUDENTE - HOMERO FERREIRA

Data 05/04/2020
Horário 08:31
Adriano Kirihara - Paulo Miguel: prestígio e projeção com publicações de fotos em grandes jornais e revistas Foto: Adriano Kirihara - Paulo Miguel: prestígio e projeção com publicações de fotos em grandes jornais e revistas

O olhar do jornalista deve ser habituado a enxergar o diferente, ver aquilo que outras pessoas dificilmente percebem, ainda que estejam no mesmo cenário. O jornalista Paulo Miguel, com destacada atuação na função de repórter fotográfico, tem esse olhar e alguns outros atributos muito relevantes para a profissão: perspicácia, sensibilidade e visão periférica. Como fotojornalista adquiriu prestígio regional e nacional, com fotos de capa nos jornais Folha de S.Paulo e o Estado de S.Paulo; nas revistas Manchete e Veja; além da façanha internacional da melhor foto do mês na revista norte-americana Life, em sua célebre seção The Big Picture (A Grande Imagem).

A foto que rendeu tamanha repercussão foi a de uma jornalista na mira de arma de grosso calibre apontada para sua cabeça, na janela de um carro forte. Era agosto de 1989, quando três criminosos sequestraram um menino em Goiânia, mas surpreendidos pela polícia, para empreenderem fuga, trocaram o refém por três jornalistas. Numa sequência de ações cinematográficas, cortaram Estados brasileiros com um carro forte roubado durante perseguição policial, com o desfecho da fuga em avião, em fazenda próxima à Rodovia Assis Chateaubriand (SP-425), perto das margens do Rio Paranapanema, na divisa de São Paulo e Paraná. Foi em Pirapozinho, no distrito de Itororó do Paranapanema.

Das três jornalistas sequestradas, duas só foram libertadas no final: Solange Franco e Mônica Calassa, respectivamente da TV Anhanguera e TC Goiás. A foto foi da Solange, tirada em frações de segundo, quando um os sequestradores usou a jornalista para pegar água e alimento. Entre dezenas de jornalistas, Paulo Miguel foi o único com habilidade para conversar, aproximar-se e fazer a foto. O grande fato ajuda muito. Mas tirar leite de pedra também faz parte de sua vida e o autor desta reportagem teve a felicidade de compartilhar trabalho, inclusive como parceiro em coberturas para O Estado de S.Paulo; sendo sua dupla na Folha com Ulisses de Souza.

Dentre as lembranças de fatos triviais, que renderam capas no extinto jornal Oeste Notícias, está a matéria surgida pelo olhar do fotojornalista ao passar por famílias de balaieiro, em um terreno de bairro em Álvares Machado. As imagens das tiras sendo trançadas por mãos ágeis dando forma ao balaio foram o ponto de partida para contar histórias de vidas. Na procissão fluvial de Nossa Senhora dos Navegantes, no Rio Paraná, em Presidente Epitácio, a foto a partir da chama de uma vela no mezanino ao fundo da igreja, com a luz iluminando os fiéis.

COMUNICAÇÃO

VEM DO BERÇO

Paulo Miguel é neto de libaneses por parte do pai. Seus avós Jorge Miguel e Thala Miguel, que ficou conhecida no Brasil como Dona Rosa e dá nome a uma das principais ruas de Rancharia, vieram do Líbano para Salto Grande (SP), de onde se mudaram para Rancharia em 1929 e abriram o empório de variedade Casa Barateira. Os avós por parte de mãe Emídgio de Barros e Cecília de Barros foram professores que, depois de lecionar em várias cidades do interior, firmaram a vida em Botucatu (SP). Emídgio de Barros é nome de escola pública no bairro de Pinheiros, em São Paulo.

Seu pai Chede Miguel nasceu em Salto Grande e foi criança para Rancharia. Trabalhou na loja dos pais e depois, aos 15 anos, numa tipografia para aprender o ofício. Sua mãe Cecília Maria de Barros Miguel nasceu em Botucatu. Como professora primária, foi lecionar em Quatá, na escola rural da Fazenda Santa Lina. Chede frequentava os bailes do clube de Quatá, onde se conheceram. Ao se casarem, Cecília foi para Rancharia, onde deu aulas até se aposentar. Chede virou dono da gráfica e publicou O Jornal e Rancharia em Revista. Foi diretor de rádio, cronista esportivo, radialista e se envolveu em muitas campanhas comunitárias.

Os três filhos do casal são rancharienses: a professora Maria Cristina de Barros Miguel, a empresária Maria Ligia de Barros Miguel e o jornalista e professor universitário Paulo Henrique de Barros Miguel, que nasceu em 9 de outubro de 1959. Estudou o primário na Escola Dr. Júlio Lucant, o ginasial no IE (Instituto de Educação) Dom Antônio José dos Santos e o colegial na Escola Dr. Benito Martins Barbosa, em Rancharia. Em São Paulo, fez Jornalismo na Universidade Paulista (atual Unip). Fez especialização em fotografia na UEL (Universidade de Londrina) e mestrado em educação na Unoeste (Universidade do Oeste Paulista).

Na faculdade, Paulo Miguel conheceu sua esposa Heloísa Miguel, que também é jornalista e que atuou como professora universitária. Do casamento em 1983 resultaram dois filhos: Felipe e Flora, ambos graduados na área de Comunicação. Além de fotojornalista, como professor dessa área formou vários “seguidores” com atuação dentro e foram do Brasil. Pelo fato de seu pai ter jornal e revista, o interesse pelo jornalismo começou quando ainda era criança. Na adolescência ganhou uma câmera fotográfica. Aos 15 anos era o fotógrafo da família. Como seu pai tinha fechado as publicações, foi ser colaborador no jornal O Ranchariense.

PRIMEIRA FOTO

PUBLICADA

Sua primeira foto publicada foi da inauguração da Rodovia Homero Severo Lins (SP-284), pelo então secretário de Obras do Estado, Paulo Salim Maluf. Posteriormente, como estudante de Jornalismo começou a prestar serviços, como free lancer, na imprensa da capital. Trabalhou no jornal de bairro Gazeta da Vila Mariana, na revista de cinema Cineasta e colaborou com diversos veículos. De volta a Rancharia, foi dono de gráfica. Em parceria com os jornalistas Marcos Barbosa e Ulisses de Souza fundou o jornal O Atual, ao mesmo tempo em que passou a trabalhar para a Folha e ficou durante nove anos da sucursal de Presidente Prudente.

Junto com Ulisses de Souza teve jornal semanário Cotidiano Rural, quando surgiu o Oeste Notícias e lá foi trabalhar. Foi quando a Unoeste instalou a Facopp (Faculdade de Comunicação de Presidente Prudente), em 1995, na qual ingressou como professor de fotografia e a sua aposentadoria ocorreu no ano passado. Permanece dando aulas na Fema (Fundação Educacional do Município de Assis), onde atua no cursos de Publicidade e Fotografia, do qual também é coordenador. Como repórter fotográfico, com mais de 30 anos de profissão, tem outra especialidade, que é a fotografia publicitária e nessa área continua prestando serviços para agências do ramo.

Paulo Miguel tem a música como hobby. Ouve muito, adora shows, coleciona discos de vinil e se arrisca, domesticamente, a tocar violão. Outro prazer são as viagens com a esposa, filhos ou grupo de amigos, com predileção às cidades históricas, que aproveita para fotografar, cujas fotos renderam algumas exposições. O seu plano futuro, após a aposentadoria em definitivo, é viver em Iguape, no litoral sul paulista. Em jornal, sua atuação mais recente foi aqui em O Imparcial, para contribuir com a equipe num período de transição administrativa, por convite do diretor Sinomar Calmona.

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