'Até hoje fico com medo de sair sozinho', afirma homem que alega agressão pela PM

Em entrevista a O Imparcial, Rafael Gomes conta detalhes sobre o que ocorreu antes e depois da manhã do dia 20 de outubro

PRUDENTE - ROBERTO KAWASAKI

Data 29/10/2020
Horário 15:05
Cedida - Rafael Gomes tem 35 anos e é morador de Narandiba
Cedida - Rafael Gomes tem 35 anos e é morador de Narandiba

“Até hoje fico com medo de sair sozinho. Aquelas pessoas estavam ali para me proteger, não para me agredir”. Essa é a afirmação do professor de educação infantil, Rafael Gomes, 35 anos, que denunciou policiais militares após uma suposta agressão ocorrida na terça-feira da semana passada, em um banheiro no Parque do Povo de Presidente Prudente.

No corpo ele ainda carrega as marcas do dia em que pensou que pudesse ocorrer o pior: pálpebra vermelha, machucado no cotovelo e dor na região da cabeça.

“Eu estava aqui [na cidade] por um motivo, não estava fazendo nada de ilícito. Então, depois disso fico com certo de receio de vir a Prudente para fazer alguma coisa”, expõe.

No dia 20 de outubro, o morador de Narandiba chegou à cidade com uma van da saúde. Ainda era começo da manhã e faltava algum tempo para o atendimento no Detran-SP (Departamento Estadual de Trânsito), onde passaria por perícia médica a fim de uma CNH (Carteira Nacional de Habilitação) especial. Para evitar a aglomeração, desceu para o Parque do Povo para esperar.

Como noticiado por este diário, em certo momento decidiu usar o banheiro público quando foi surpreendido enquanto utilizava uma das cabines.

“Quando perguntou quantas pessoas estavam no banheiro e eu falei: ‘uma só’, bateram a mão na porta, ela bateu no meu braço e no celular, que caiu”, explica.

Rafael relata que as agressões duraram aproximadamente cinco minutos, e ele só percebeu que eram militares quando o puxaram para fora da cabine. “Eram socos, chutes. Não falavam nada, só me agrediam. Teve um momento que o soco foi tão forte que escureceu toda a minha vista”, lembra.

Depois de ser deixado no local, Rafael conseguiu sair e fotografar o emplacamento das viaturas, bem como os rostos dos policiais.

As imagens, segundo a advogada Glaucia de Freitas, serão utilizadas apenas no processo. “Eles não saíram de lá. Uma senhora ainda me ajudou, tomei água, e quando fiz o gargarejo percebi que estava com sangue na boca e no nariz”, explica o professor.

As lesões no nariz, cotovelo, olhos e cabeça foram examinadas no exame de corpo de delito – resultado ainda não conferido. “Quando abro muito a boca ainda sinto dor [na cabeça]”, afirma.

De acordo com a vítima, depois de registrar o boletim de ocorrência na Polícia Civil, voltou a Narandiba e, no retorno a Prudente para fazer os exames, o receio era viajar sozinho.

“Fiquei com medo. Quando contei toda a história para a assistente social da minha cidade, acho que entrei em transe e escureceu toda a vista, só acordei com o soro no braço e minha mãe do lado. Eu só chorava”, conta o professor, que teve acompanhamento de uma psicóloga.

Procedimento instaurado

A suposta agressão envolvendo policiais militares é alvo de investigação.

À reportagem, a Polícia Militar disse que tomou conhecimento do fato após solicitações da imprensa, e que em momento algum a vítima procurou a instituição. Ainda conforme a corporação, será instaurado procedimento apuratório cabível para investigar a “possível irregularidade praticada por policiais militares.

“A Polícia Militar do Estado de São Paulo não coaduna com qualquer tipo de excesso ou violência policial. Preza para que seus agentes tenham uma postura técnica, pelo uso escalonado da força, dentro dos limites que a lei nos autoriza e que estão descritos nos nossos procedimentos operacionais, adotando todas as medidas necessárias, para se evitar tais eventos”, informou.

Para o professor e advogada, o momento é esperar por Justiça: "vai ser apurado e esses nomes [dos agressores] vão ser sim [divulgados]. Mas no momento a gente tem que ter muito cuidado em acusar alguém. Tem que se instaurar a ampla defesa, o contraditório, e ao final tenho certeza que ele vai ter o direito dele garantido", salienta a defesa.

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