É crime ou entretenimento?

Roberto Mancuzo

CRÔNICA - Roberto Mancuzo

Data 20/01/2026
Horário 05:30

Intolerância religiosa é crime no Brasil, assim como o racismo e, especialmente, o assédio sexual. 

Mais do que qualquer forma de repressão, estas leis são conquistas sociais e políticas muito relevantes e já viraram exemplo para o mundo todo. 

Mas, vez ou outra, temos que enfrentar situações limites, que sempre fazem pensar que o trabalho de conscientização e prevenção não pode parar um só segundo. 

Neste último final de semana, uma advogada argentina cometeu injúrias raciais contra um funcionário de um restaurante no Rio de janeiro. 

Depois de uma discussão pela conta, ela saiu do local e imitou um macaco, além de chamar o rapaz de mono, que é o termo em espanhol para a classe dos primatas. 

A mulher teve os documentos detidos e agora terá que encarar a lei brasileira, já que lá por terras hermanas, essa prática não parece ser tão combatida. 

Disse ela em depoimento que foi “só uma brincadeira” e diversos comentários nas redes sociais relativizavam de fato o crime, como sendo apenas “um barraco normal na praia” ou uma “liberdade de expressão”.

Por estes mesmos dias, começou o “Big Brother Brasil” e, com ele, toda sorte de bobagens, de polêmicas e, em especial, a péssima atitude de confundir crime com entretenimento. 

É meio como se o “Big Brother” fosse um espaço privado da lei e da ordem, uma esfera que roda em outra dimensão e que é, portanto, um lugar onde pode-se quase tudo em nome da audiência. Eles até tentam dar um ar legalista, mas é sempre para inglês ver.

E é ali, neste espaço de confinamento humano, que o participante chamado Pedro acusou a sister Ana Paula, de ter feito um “trabalho” contra ele, em uma referência jocosa ao fato dela ser da Umbanda.

Tom jocoso e preconceituoso porque rotula a religião de matriz africana a uma condição maléfica. O que é uma grande bobagem, porque ninguém vai ser atingido, adoecido ou o quer que seja, porque a pessoa desta ou daquela religião assim desejou ou manipulou suas forças espirituais para tanto. 

Por fim, o mesmo rapaz, de nome Pedro, cometeu um assédio sexual explícito contra uma das participantes e depois de perceber que tudo estava gravado, decidiu sair do programa, apertando um botão de desistência. 

Foi direto para a delegacia? Não se sabe. Foi preso? Não se sabe. Vai ficar famoso e ganhar seguidores? Certamente que sim. 

Porque assim como a vida imita a arte, a arte imita a vida e nas conversas entre os participantes, após a saída do rapaz, as expressões eram inacreditáveis: “Tenho pena dele”; “Poxa, um menino tão novo”; “Quero acreditar que ele não fez por mal”. 

Pois bem, enquanto passam pano lá dentro da casa, aqui fora, uma menina foi assediada e uma religião atingida duramente pela discriminação e pela intolerância. 

Que mundo podre é esse, quando tudo é relativizado em nome do entretenimento, da audiência e da vida besta? 
 

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