"Cultura" é um termo traiçoeiro 

OPINIÃO - Helber Henrique Guedes

Data 04/07/2026
Horário 05:00

Vivemos em um tempo em que tudo acontece com pressa. E, muitas vezes, passamos pelos dias sem tempo para escutar e ser escutados. Quando paramos para uma conversa, sem julgamentos, algo muda ao nosso redor. A roda cria esse espaço. Foi dessa inquietação que nasceu o Círculo de Cultura promovido pelo CAC (Comitê de Ação Cultural) da FCT Unesp, inspirado na metodologia desenvolvida por Paulo Freire. O Círculo de Cultura parte do diálogo, da escuta e da reflexão coletiva sobre a realidade.
O primeiro encontro, realizado em maio, discutiu os desafios dos agentes culturais e a cultura como direito. Ao final da roda, porém, percebemos que havia uma pergunta anterior a todas as outras: afinal, o que é cultura?
Essa pergunta orientou o segundo encontro, que teve como ponto de partida a leitura do capítulo "Estado, cultura popular e identidade nacional", do livro “Cultura Brasileira e Identidade Nacional”, do sociólogo Renato Ortiz. Não buscávamos uma definição pronta. Pelo contrário, queríamos compreender como diferentes pessoas, territórios e experiências constroem distintas formas de entender a cultura.
As reflexões que surgiram durante o debate não terminaram quando a roda se desfez. Elas continuaram me acompanhando e encontraram eco em uma provocação do professor António Pinto Ribeiro, investigador e programador cultural português, que conheci durante uma atividade em Portugal. Uma frase, em especial, permaneceu comigo: "cultura é um termo traiçoeiro". 
À primeira vista, a afirmação parece exagerada. Mas ela faz sentido quando percebemos que a palavra "cultura" muda de significado conforme quem a utiliza, em qual contexto e com qual intenção. A mesma palavra pode representar ideias completamente diferentes para pessoas diferentes. 
Inspirado no antropólogo Arjun Appadurai, António Pinto Ribeiro propõe um deslocamento importante. Em vez de falarmos da "cultura" como uma entidade fixa, homogênea e acabada, deveríamos pensar no "cultural". A mudança parece pequena, mas altera profundamente nossa maneira de compreender a realidade. Falar do cultural significa reconhecer que a vida social é feita de processos, relações, conflitos, memórias, expectativas, diferenças e encontros. O cultural não está pronto; ele acontece. É construído continuamente pelas pessoas, pelos territórios, pelas instituições e pelas formas como interpretamos o mundo.
Essa perspectiva dialoga profundamente com o que vivenciamos no Círculo de Cultura. Em nenhum momento buscávamos uma resposta definitiva para a pergunta "o que é cultura?". O exercício era justamente compreender que existem múltiplas formas de produzir cultura, de construir identidades e de atribuir significado às experiências humanas.
Pensar o cultural também amplia nossa compreensão sobre as políticas culturais. Cultura não se restringe aos equipamentos culturais ou às manifestações artísticas. O sistema cultural envolve a educação, a mobilidade, os serviços públicos, a comunicação, a economia, os espaços de convivência e todas as relações que estruturam a vida em sociedade. Quando um desses sistemas deixa de funcionar, seus efeitos repercutem em todo o conjunto.
Da mesma forma, o cultural não é, por natureza, apenas positivo. O mesmo sistema que produz pertencimento, criatividade e solidariedade também pode produzir intolerância, racismo, xenofobia e outras formas de violência. Por isso, pensar políticas culturais é também pensar políticas voltadas para a democracia, para a convivência e para a construção de uma cultura de paz.
A maior contribuição do nosso segundo Círculo de Cultura foi compreender que o desafio não está em encontrar uma definição para a cultura, mas em aprender a enxergá-la como um processo vivo, plural e permanentemente em construção. Que a roda continue sendo um dos melhores lugares para pensar a sociedade que queremos construir.
 

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