Mantas que aquecem, cordas que sustentam

Dia de banho do meu cãozinho Caju. Colocando-o no banco traseiro do carro para levá-lo, observei que havia uma toalha de mesa esquecida, e de linho, para ser levada à lavanderia. Estava frio. Pensei: É de linho, fria, escorregadia, posso brecar o carro e ele escorregar, machucar, retirei a toalha e a coloquei no porta-malas. Nessa hora fiz uma viagem sobre as mantas que aquecem, abraçando. Pensei nas linhas, nos fios, no bicho da seda que tecem, enfim, tessituras. Na realidade pensei sobre as mães suficientemente boas (Winnicott). Pensei nos fios que formam algo que sustenta, aquece, embrulha, embala, fica junto e agarra. 
Quando as crianças nascem, elas manifestam os efeitos reflexos. É um reflexo primitivo fundamental para o desenvolvimento neurológico. São respostas automáticas e involuntárias fundamentais para a sobrevivência e adaptação. Quando meus bebês nasceram, eu observava que abriam as mãozinhas, pareciam sustos, sensações de queda ao chão, eu intuía que precisava segurá-los firmes. Contê-los junto ao meu corpo, os segurando firme para que sentissem contidos em um continente. Guardados em um ninho, como o que acabaram de sair-útero.
Podemos pensar que toda mente, ao nascer, necessita de uma outra mente para poder se desenvolver. A projeção primitiva da criança, de angústias e sensorialidades evacuadas ou colocadas para fora, necessita de um acolhimento, de uma transformação, de uma restituição que compreenda também esse fator desconhecido, esse algo estranho e devolvê-lo para a criança mais transformado e suavizado. O bebê introjetará algo bom e essencial. Quando esse processo acontece de forma suficientemente normal, há desenvolvimento e crescimento progressivo e cada vez mais operante na mente da criança. É como uma manta que aquece abraçando. Ela conhecerá o amor, acolhimento e carinho. 
O caso de Maria Eduarda Rodrigues aos 21 anos - que morreu durante o salto rope jump, em Limeira - chocou a todos nós. A publicação da imagem dela, pronta para o salto, perturba demais. Quem realmente, falhou? A adolescência é uma fase que inspira cuidados de todos os lados. O jovem está e quer experimentar o tempo todo, o novo, o desconhecido e provar para todos que sabe tudo e que tem poder. Encontram-se em sua fase mais vulnerável, pois estão vivendo lutos do corpo infantil, pais da infância e a identidade infantil. Ora são crianças, ora super-homens ou supermulheres. Rejeitam os conselhos e odeiam quem se mete na vida deles. 
O princípio de funcionamento mental que prevalece é quase, só o do prazer, e a realidade permanece em segundo plano. Permanecem hiperativos, déficit de concentração, aloprados a ponto de não perceber o óbvio ou o básico. A autoagressividade, juntamente com um cenário muito sombrio e perturbador se repete a todo momento. Não há como permanecer indiferentes à negligência de responsáveis que autorizam determinadas modalidades “fio de navalha”. 
Todos nós, de alguma forma, temos o dever de proteger as crianças e os adolescentes. Devemos denunciar os riscos. O caso Maria Eduarda choca e permanece no pensamento, buscando um sentido para tal desfecho. E ela não percebeu que estava avulsa e des-ligada, solta, sem “cordão-umbilical - corda”? Explicam que é o efeito adrenalina. O efeito adrenérgico é você esquecer-se de si mesmo e o mais importante que é a vida, torna-se irrelevante? Vamos segurar as nossas crianças e adolescentes com as “mantas que aquecem”, tecidas com a linha chamada amor. É urgente que o diálogo e o limite sejam temperados com amor e sabedoria.

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