“Não sei como eu estaria hoje se não tivesse adentrado a pista de atletismo!”

Bruno Lins, VELOCISTA

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Data 23/08/2019
Horário 04:00
Foto: Sérgio Borges - Bruno treina forte para Troféu Brasil de Atletismo, do dia 29 de agosto a 1º de setembro, em Bragança Paulista
Foto: Sérgio Borges - Bruno treina forte para Troféu Brasil de Atletismo, do dia 29 de agosto a 1º de setembro, em Bragança Paulista

Com o amor externado por esportes, ele veio lá do Nordeste para voar rasante no interior paulista. Chegou a Presidente Prudente em 2007, onde fincou raízes, constituiu família e se tornou parte da pista da Unesp (Universidade Estadual Paulista), em treinamentos e mais treinamentos debaixo de um sol escaldante ou e de uma manhã fria! Estamos falando do velocista Bruno Lins Tenório de Barros Nascimento, 32 anos. Para quem não o conhece vai poder dar um pique em cada uma de suas respostas nesta entrevista e visualizar momentos de sua vida particular e de sua trajetória no atletismo! São três Olimpíadas: 2008, Jogos de Pequim; 2012, Jogos de Londres; e 2016, no Rio de Janeiro. Treinando forte, esse ano ele ainda tem como objetivo competir o Troféu Brasil de Atletismo. Bruno fala das adaptações quais teve que passar após dez anos com um mesmo técnico, da importância que a modalidade tem em sua vida, bem como do desejo de ver de perto “o Brasil investir para o esporte nacional ser muito bem representado, de modo geral por seus atletas”!

 

Quando foi que descobriu que tinha “asas” em seus pés e o dom para se tornar um velocista?

Tudo começou por acaso em minha vida. Eu sempre gostei de praticar esportes, participava de jogos internos, escolares e em todas as modalidades: futsal, voleibol, basquetebol, handebol, mas não era tão bom. Até que tive um destaque enorme, no atletismo, nos jogos alagoanos, que consequentemente era a seletiva para os Jogos da Juventude, em Goiânia [GO], em 2002. Foi quando meu primeiro treinador, Mahebal, lá em Maceió, Alagoas, ficou encantado com a primeira prova que fiz correndo 100m [metros] e 200m. Foi exatamente ai que começou a minha história dentro daquilo que eu já amava: o esporte!

 

Onde você nasceu? E como veio parar em Presidente Prudente?

Sou natural de Maceió [AL]. Em 2006, tive um destaque grande em competições juvenis. E em 2007, cheguei a Presidente Prudente. Foi neste ano que conheci o Jayme Netto, que foi meu treinador até 2017. Ele me viu correr em Macau, na China, nos Jogos da Lusofonia. Achou interessante minha característica, especialmente nos 200m, e me convidou pra vir treinar nesta cidade que eu amo e não pretendo deixá-la tão cedo!

 

Fale do gosto da medalha de bronze qual a equipe formada por você, Vicente Lenílson,  Sandro Viana e José Carlos Moreira, o Codó, conquistaram, no ano passado, após a polêmica desclassificação da equipe jamaicana no revezamento 4x100m, em Pequim (2008).

Maravilhoso! Saber que sou um medalhista olímpico, que tenho uma conquista desse patamar e meu histórico como atleta... Obviamente que gostaríamos de ter voltado com essa medalha no peito, mas foi dessa forma que nossa história teve que ser escrita... A nossa equipe era maravilhosa, tínhamos alguns momentos de discussões, como em treinos simples, errávamos bastante, ao ponto de quebrarmos o pau mesmo, mas no momento em que entrávamos na pista para competir éramos muito unidos, parceiros. E tínhamos certeza que algo bom iria acontecer!

Quais seus últimos feitos? Competições, pódios...

Meu último feito posso dizer que foi em 2015, no Pan-Americano, em Toronto, no Canadá, onde obtivemos a prata no revezamento 4x100. Em 2016, estive presente nas Olimpíadas do Rio, qual ficamos na sexta colocação... Foram dez anos sabe?! Com o mesmo treinador, mesmo treinamento, mesmo método, então foi uma mudança difícil. O processo de adaptações de toda essa mudança foi grande, mas estamos indo bem com Eliseu Sena! E esse ano ainda tenho como objetivo competir o Troféu Brasil de Atletismo.  

 

Tem alguma competição próxima?

O Troféu Brasil de Atletismo, que será realizado do dia 29 de agosto a 1º de setembro, em Bragança Paulista. Uma competição muito importante, de grandes nomes do atletismo, onde toda a ‘nata’, todos os velocistas, pelo menos da minha prova, que é velocidade, estarão lá presentes. Então tem que estar muito bem preparado fisicamente, mentalmente e espiritualmente para encarar esse desafio.

 

Como estão seus treinos?

Estão ótimos, embora, como citei acima, tudo bem diferente do que a gente fez durante dez anos. Estou tendo um bom treinamento, mas assim como todo atleta, a preparação não vale quando não se vê resultados expressivos em competições. Espero que o Troféu Brasil possa ser uma competição muito abençoada e que Deus permita que eu possa correr bastante. O treinamento está afiado, agora é só colocar em prática.

 

Quantas Olimpíadas você participou ao longo de sua trajetória esportiva?

São três Olimpíadas: 2008, Jogos de Pequim; 2012, Jogos de Londres; e 2016, no Rio de Janeiro!

 

O que poderia falar a respeito do patrocínio no Brasil?

No Brasil, é um pouco complicada essa questão. Acredito que ainda que o atleta tenha um histórico grandioso, de certa forma não é valorizado. Ele não pode ter um ano ruim, uma lesão séria, tem que se mostrar sempre 100% senão a maioria dos patrocinadores sai e vai embora. Veja bem, alguns atletas da NBA, por exemplo, chegam a ficar até um ano inteiro fora [obviamente que o contrato deles é muito caro], mas são valorizados. Há uma expectativa da equipe para o retorno dele e no Brasil, infelizmente não temos isso. O país tem que mudar muito ainda essa mentalidade, tem que ter uma visão mais humana para o atleta, entender que não somos uma máquina, um robô que está pronto para tudo e que as dificuldades existem. Assim como uma empresa passa por dificuldades e se reergue, com o atleta é da mesma forma. Às vezes ele teve uma competição ruim, uma temporada ruim, um ano ruim e você vai e desiste dele naquele momento... talvez, se você tivesse acreditado um pouco mais, na temporada seguinte ele poderia ter feito os melhores resultados da vida!

 

O que o atletismo significa para Bruno Lins?

O atletismo é tudo em minha vida. Tudo que conquistei é por esse esporte. Saí lá do Nordeste, vim para o interior de São Paulo e as coisas deram certo! Três Olímpiadas, uma medalha olímpica, dois Pan-Americanos, dentre esses duas medalhas, outras de Troféu Brasil. Enfim, inúmeras competições que pude participar. Conhecer grande parte do mundo, Ásia, Europa, América do Sul, América do Norte, América Central. Isso é gratificante, uma experiência única. Eu sinceramente não sei como eu estaria hoje se não tivesse adentrado pista adentro no atletismo!

 

Podemos entrar um pouquinho mais em sua vida pessoal? Quem são os pais, irmãos de Bruno Lins? O que você traz na memória de sua infância, adolescência?

Meus pais se chamam Jaidete e Deraldo. Tenho dois irmãos, Ane e Deivison, por parte de pai e mãe, e mais dois de outro casamento do meu pai, Rebeca e Davi. Eu posso dizer que tive uma infância maravilhosa, divertida, com muitas brincadeiras na rua, mas também marcada pela dor da separação dos meus pais. Ele nunca esteve presente em minha vida e minha mãe tinha que se virar nas duas funções dentro de casa e ainda trabalhar fora. Minha adolescência também foi muito boa e só tenho a agradecer a Deus por Ele ter me concebido tantas coisas boas. Problemas todo mundo tem, né?

 

Você é casado (nome)? Tem filhos? Pretende incentivá-los ao mundo esportivo? 

Sim, sou casado, minha esposa se chama Maria Lúcia Gomes Vitório Lins e temos duas filhas, a Maria Clara, que é a mais velha com 7 anos, e a Maria Isabel, de 5. Sinceramente não sei se quero interferir nessa escolha delas. Não que não seja meu desejo, mas quero que parta delas o interesse pelo esporte. A vontade precisa ser delas porque as dificuldades são reais, falta apoio, não é fácil, mas aí já é uma coisa que acho que como pai e ex-atleta poderei ajudá-las, caso realmente queiram seguir esse caminho.

 

O mundo sabe que o esporte transforma vidas e mais vidas. Em nosso país mesmo só não vê quem não quer. Mas, ainda também é visível que falta apoio de alguma maneira. Poderia explanar o seu ponto de vista sobre o que o esporte pode fazer na vida de uma criança e, consequentemente, em sua vida adulta?

Pra mim, o esporte é tudo na vida do ser humano. Precisamos nos movimentar, sair da inércia e colocar o corpo em atividade seja uma caminhada, musculação. Hoje temos aí o crossfit com muitos praticantes, corridas de rua. O que falta em nosso país é o incentivo de base. Fazer um alinhamento entre governo, escola até a faculdade e, consequentemente, termos o máximo de atletas resgatados para participarem de mais eventos. É preciso incentivá-los ensinando o que é o voleibol, o atletismo, a natação. É fundamental que a criançada entenda mais, num contexto geral, sobre todas as modalidades e não apenas sobre o futebol. Os pais também precisam ter a vontade de participar junto com seus filhos, pois essa integração é muito importante para não os deixarmos a mercê de ‘alguém’ que surja em seu caminho dizendo que quer ajudar.

 

O Brasil tem potencial esportivo?

Temos um potencial genético gigante, nosso país é enorme. É necessário mostrar às crianças que existem outros esportes que pode fazê-las grandes vencedoras. O país precisa entender que podemos sem dúvida nos tornarmos uma potência olímpica, porque material humano nós temos, uma logística enorme igualmente, população forte, de genética muito boa. Então acredito sim que se o Brasil investir, terá um esporte muito bem representado de modo geral por nossos atletas.

Foto: Sérgio Borges - Bruno Lins já é parte integrante do solo da pista da Unesp

 

Foto: Sérgio Borges - Eliseu Sena é o treinador responsável pelo bom condicionamento do velocista

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