O silêncio na sede da Netflix, em São Paulo, guardava o peso de uma grande expectativa. Na última sexta-feira, 18 das realizadoras mais promissoras do país ocupavam o espaço como parte do projeto Visionárias — uma iniciativa da Apro e da FilmBrazil em parceria com a Apex. Entre as escolhidas para apresentar o portfólio ao gigante do streaming, uma jovem de olhar atento e narrativa firme representava não apenas o futuro do audiovisual nacional, mas as raízes profundas do interior paulista.
Nina Pieve, nome artístico de Nina Coimbra Libório, nasceu em Presidente Prudente e hoje consolida seu espaço no concorrido mercado da capital.
Descendente de imigrantes italianos que outrora trabalharam nas lavouras de café, a diretora traz no sangue a força de quem transforma a própria ancestralidade em arte visual. Criada por uma mãe profundamente cinéfila — também diretora de um longa documental baseado em uma densa pesquisa de doutorado —, Nina cresceu respirando cinema. Das salas de exibição em Prudente aos sets de filmagem de grandes marcas globais, sua trajetória desenha-se com a precisão de um roteiro bem escrito.
DO PODCAST AOS SETS INTERNACIONAIS
A caminhada profissional de Nina ganhou tração na capital paulista, onde se graduou em Publicidade e Cinema. O início deu-se na base da estrutura cinematográfica, atuando como assistente criativa na Boiler Filmes, uma das maiores produtoras do Brasil. O espírito inquieto a levou ainda mais longe: durante o isolamento da pandemia, ela trabalhou em uma produtora em Berlim, na Alemanha, absorvendo o rigor técnico do mercado europeu.
De volta ao Brasil, o destino reservou uma daquelas reviravoltas dignas de tela grande. Ao entrevistar Cláudio Borrelli — diretor renomado com projetos futuros ao lado de astros como Orlando Bloom e Ethan Hawke — para o podcast “Cinema Para Burros”, a conexão criativa foi imediata. Impressionado com a visão artística da jovem, Borrelli a convidou para integrar o prestigiado time de diretores da produtora Ilusionistas.
Desde então, Nina passou a assinar campanhas institucionais e narrativas de grande apelo emocional para marcas do calibre de Amazon, Johnson & Johnson e Aramis. O ápice comercial recente foi a direção da sensível campanha de Dia das Mães da Seara, um trabalho que se destacou pela linguagem humanizada e estética apurada.
O PASSAPORTE CARIMBADO PARA A ITÁLIA
Se a publicidade garante o domínio técnico, é no cinema autoral que a alma artística de Nina verdadeiramente transborda. Seu primeiro curta-metragem, “O Estado Original de Sofia”, estreou no Fantaspoa, o maior festival de cinema de gênero da América Latina. O reconhecimento abriu portas para o mercado internacional, culminando em sua seleção para o Terre di Cinema, um refinado laboratório europeu focado exclusivamente na execução de obras em película.
Como fruto dessa imersão, a cineasta se prepara para rodar na Itália, em setembro deste ano, o curta autoral Mirabai & Apollonia, projeto que já conta com o suporte institucional da SpCine e da gigante da fotografia Kodak.
"Trabalhar com o protagonismo feminino não é uma escolha temática passageira, é a lente pela qual enxergo o mundo e as relações humanas", define a diretora, que atualmente também se dedica ao desenvolvimento de séries e longas-metragens.
O RESGATE HISTÓRICO NA TERRA NATAL
Apesar do passaporte carimbado e do trânsito livre nas grandes agências paulistanas, os olhos de Nina Pieve voltam-se agora para as suas origens. Até o fim do ano, ela pretende iniciar as filmagens de “Olgueta”, um projeto autoral e metafórico que representa um verdadeiro retorno à sua terra natal e um resgate da história familiar ligada ao setor pecuário do oeste paulista.
O enredo de “Olgueta" transporta o espectador para o início do século XX. A trama acompanha uma jovem imigrante que trabalha em um isolado sítio de abate de animais doentes. Quando um surto de mormo — grave doença que afeta equinos — atinge a região e seu irmão caçula adoece, a protagonista inicia uma jornada em busca de liberdade além daquelas fronteiras geográficas e sociais.
Para transformar esse retrato histórico em realidade nas telas, a produção busca o apoio do empresariado regional. O filme está em fase de captação de recursos e busca finalizar o patrocínio por meio de leis de incentivo fiscal.
É uma oportunidade única para marcas locais associarem seus nomes a um projeto de relevância cultural internacional. Afinal, ao apoiar a sensibilidade de Nina Pieve, o comércio e a indústria do oeste paulista não estarão apenas financiando o cinema, mas garantindo que a força e a identidade de nossa gente fiquem eternizadas na posteridade da sétima arte.
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