Cheguei de mais uma viagem trazendo na mala roupas amassadas, lembranças mal organizadas e aquela pressa inútil de quem acredita que voltar é retomar tudo do ponto exato onde parou. Abri a porta devagar, como quem testa o chão antes de pisar, e percebi que ela estava em profundo silêncio. Não era um silêncio vazio, desses que gritam mágoa. Era denso, quase material, ocupando o espaço da sala, os cantos da casa, o intervalo entre um pensamento e outro. Então deixei as malas encostadas na parede e me aproximei sem pedir licença. Deitei ao seu lado, compartilhando o mesmo teto e o mesmo instante, e observei o mundo conosco. Não fiz perguntas. Não exigi respostas. Havia coisas que não cabiam em palavras naquele momento, e qualquer tentativa de verbalização soaria como um ruído grosseiro em uma partitura sagrada.
Enquanto eu tentava decifrar aquele mutismo, o silêncio me ensinava a escutar o que sobra quando tudo passa: o eco de uma palavra que não foi dita no telefone, a sombra de um gesto que ficou suspenso no ar, o perfume fraco de um tempo que já foi e não voltou junto comigo. Era como se a minha partida tivesse criado uma acústica nova na casa, onde a falta se tornava mais audível que a presença. O silêncio não consola — isso eu já sabia —, mas também não julga. Ele apenas fica.
Percebi que minha ausência tinha deixado pequenos vãos, como móveis retirados de um cômodo. Onde antes havia o costume, agora existia a estranheza do rearranjo. Nada quebrado, nada irreparável, apenas espaços. E espaços pedem respeito. Eles não devem ser preenchidos com entulho emocional só para aplacar nossa ansiedade. Naquela noite, entendi que nem tudo precisa ser resolvido imediatamente. O imediatismo é uma doença da distância; a proximidade real aceita o mofo, a poeira e o tempo de cura. Algumas dores não querem solução; querem apenas repouso. Querem o direito de existir sem serem interrogadas.
O silêncio dela era assim: uma fotografia antiga guardada em uma caixa. Não se olha todos os dias, mas sabemos o quanto o que está ali importa. Mexer sem cuidado poderia rasgar a textura fina daquela introspecção. Então respirei no ritmo dela, sentindo a cadência do seu peito subir e descer, como as ondas de um mar em calmaria após a tempestade.
Quando adormecemos, o silêncio ainda estava lá. Não como distância, mas como acordo. Um pacto invisível selado pela aceitação da mudez do outro. E foi ali, naquele intervalo discreto entre o cansaço e o sonho, que compreendi: às vezes, voltar não é falar. É permanecer.
Raul Borges Guimarães é professor titular do Departamento de Geografia da FCT/Unesp (Faculdade de Ciências e Tecnologia da Universidade Estadual Paulista) e pró-reitor de Extensão Universitária e Cultura da mesma instituição. Contato: [email protected] e Instagram @fala_raul