Quando até o silêncio começa a incomodar

Sempre idealizamos e queremos o melhor. Não lidamos bem com as faltas, impossibilidades e perdas. Principalmente quando não realizamos nossos desejos. Há pessoas com mais recursos, outras entram em desespero ao menor sinal de experiências de desconfortos, lutos ou separações. Quando criança, representamos sem censura e crítica, nossas expressões de birras ao não conseguir realizar qualquer demanda. As crianças deitam ao chão, esperneiam, gritam, lágrimas rolam. Até parece que nunca tiveram o que estão desejando. Sempre querem, e ainda mais o que o outro tem. Nunca estão satisfeitas. Os adultos também.
Tempos atrás passávamos mais tempo esperando o que desejávamos. Elaborávamos bem o espaço de tempo entre o não ter e o ter. Esse espaço é extremamente importante, sabiam? Atualmente os pais entram em desespero diante de demandas dos filhos. Eles desejam algo e os pais não hesitam em adquirir o mais rapidamente possível. Ainda mais se foi o brinquedo do coleguinha que o inspirou. 
A pressa em realizar todos os desejos dos filhos é muito voraz. Os pais da contemporaneidade não permitem que seus filhos tenham a experiência de frustrações. As perdas, desconfortos e conflitos no dia a dia provocam desesperos nos pais. Alguns comportam dessa maneira por não terem tido em sua infância ou adolescência experiências de perdas e frustrações em seu repertório de vida. Outros pais não querem que seus filhos sintam as privações que experienciaram na infância e daí se comportam com total permissividade.
Não podemos entristecer? Temos de ser, de qualquer modo, felizes? Ou se não, que expressemos essa felicidade de qualquer jeito? O modelo é ser radiante e contagiar com euforia. Mas quando até o silêncio começa a nos incomodar, acredite, pare e reflita. Todos nós necessitamos entre o intervalo de não ter até o ter, dar significado a esse “vazio-espaço”. Precisamos dar sentido às faltas, frustrações e perdas. Todos nós, crianças, adolescentes e adultos. E se em algum momento não conseguirmos a gratificação, enfrente a dor, nunca fuja dela, tampouco tente substituir por fórmulas mágicas como comer ou comprar compulsivamente, fazer uso de substâncias lícitas ou ilícitas, fazer uso abusivo e mecânico da internet e de redes sociais, etc. 
O silêncio é presença viva de significados. É um diálogo consigo próprio. Simbolizar é sentir-se vivo na hora da dor. E sair dela sozinho, quando puder. Não tente fugir. Assim sendo, seu repertório para sonhar será grande. Temos que aprender a lidar com nossos momentos de tristezas e dor. “Levanta, sacode a poeira e dá volta por cima”, diz a música. Mas às vezes nem sempre dá para dar volta por cima. Temos que re-conhecer e lidar melhor com nossa sensibilidade humana. Por que não pensar em: “Levanta, sacode a poeira e dá volta por baixo”? 
 

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