Eu, como qualquer outro, imagino, teria voltado a cabeça se não tivesse identificado naquele átimo o que estava acontecendo. Foi assim de repente. Além do frio no estômago senti também o frio e a rigidez do cano da arma um pouco acima da minha orelha direita. Eu não tinha visto ele chegar. Veio como um gato, silenciosamente e me pegou de surpresa. Não o vi, mas reconheci a sua voz e, por ela, identifiquei uma pessoa magoada, enraivecida, ferida.
- Vou matar você, seu fdp!
Foi a única coisa que disse. Eu gelei tanto que o cano da pistola me pareceu quente. Pensei em perguntar: — “Hã?” — Mas achei que seria idiotice. Afinal, mais claro que ele tinha sido impossível.
Tinha razão, ele. Quanto à sua enorme vontade, não quanto ao adjetivo usado.
Não vou dizer que, naquele momento, me arrependi do que tinha feito e que o deixara fulo da vida. Mas, claro, achei que nunca deveria ter feito. A boca seca me impediu de engolir até as palavras que me vieram à ponta da língua e não saíram.
Mas quem, no meu lugar, não faria o que fiz? Foi burrice, eu sei, mas acho que qualquer um cometeria essa burrice.
Flor de Maio era boa pra caramba. A cidade inteira achava. Eu fazia parte da cidade, ué! Não havia um cristão que não sentisse inveja do Tavico. Só ele tinha aquele mulherão. Flor de Maio tinha esse nome porque, acho, não havia outro tão adequado que seu pai pudesse ter escolhido pra ela. Quando passava todo mundo olhava. Só quando Tavico não estava por perto, porque todos sabíamos que o cara era marrudo e tinha fama de valente. Coisa de se ouvir falar porque ninguém tinha certeza de que as coisas que falavam dele, de quando morava em Tatuí, era tudo verdade. Mas, pelo sim, pelo não, a gente não queria conferir porque, vamos e venhamos, pelos menos cara de valente ele tinha. E vai que fosse tudo verdade! Moreno escuro, sem traços da raça negra, olhos pequeninos de leitão, bigode ralo espetado como se fosse de arame. Quando, raramente, ria, exibia uns dentes de percherrão, amarelados, num destaque tenebroso na sua cara escura. Então a gente olhava Flor de Maio com os olhos e lambia com a testa, quando ela passava. A malvada sabia que a cidade masculina se babava toda por ela. Que mulher não sabe?
Naquele dia o instinto foi maior que eu; que a minha cautela com relação ao Tavico. As florzinhas vermelhas da calcinha apareciam através do tecido das calças compridas, justas, brancas, quase transparentes que, juro por Deus, ela deve ter chamado alguém pra ajudar vestir. A blusa, bege, generosamente decotada, era da mesma cor dos sapatos, saltos agulha de, calculei por cima, uns 20 centímetros de altura. Entrou na quitanda e foi escolher logo as mangas que estavam no cesto lá de baixo, no chão. E estava de costas pra mim. Mãe do céu! Ela malhava diariamente e, portanto, era dessas que apanham uma agulha no tapete sem dobrar as pernas. Menino! Eu cheguei.
- Boa tarde, Flor — essa intimidade eu tinha só longe do Tavico.
- Oi! Tá bom? – sorriu.
- Melhor agora, que você está aqui – foi o máximo do galanteio que consegui.
- Bondade sua...
- Você está mais bonita hoje.
- São seus olhos...
- E o Tavico?
- Foi pra Campinas. Resolver uns negócios.
- E você está só? Que desperdício...
- Acha?
- Sim... e eu gostaria de reparar isso...
- Está me cantando?
- Pois é, Flor... A gente podia... bem... podia... você sabe, jantar juntos, num lugar sossegado. Só nós dois. Tomar um vinho... E depois... depois...
Passei a língua pelos lábios secos. Perdi o fio da meada. Depois o quê, merda? Limpei a garganta, tossi...
- Vou ajudar você, já que está meio sem palavras. Eu também me simpatizo muito com você, mas, você sabe... sou uma mulher casada e não faço nada sem autorização do meu marido. Ele vai voltar amanhã cedo. Assim que chegar falo com ele, tá bom? Se concordar, terei muito prazer em me encontrar com você... Tomar esse vinho...
E saiu rebolando, me deixando com uma zoeira na cabeça, um bolo no estômago, um frio na espinha, um suadouro nas palmas das mãos que nem te conto. A louca ia falar com o marido? Ia? Ia! Sabia que ia. Saí dali trançando as pernas, sem saber pra onde ir, xingando a mim mesmo de idiota, de burro, de tudo quanto é nome feio que aprendi em toda a minha vida. Por que tinha sido tão besta, meu Deus? Trombei com o poste da esquina. Voltei para a quitanda, rodei nos calcanhares, saí novamente, pensei em pegar o ônibus (Cuiabá) que passava naquele momento e sumir para sempre...
Passei duas semanas desviando-me de Tavico. Era ele apontar na esquina que eu enveredava pelo outro lado. Quinze dias assim, com as calças na mão!
Agora ele me pegou desprevenido, sentado nesta mesa, com uma cerveja meio choca na minha frente. E estava enfurecido.
— Vou matar você, seu fdp!
Já contei que ele disse isso?
Uma vez li em algum lugar, num artigo escrito por um físico, que o cara que dá um tiro no ouvido não chega a escutar o barulho do estampido...
É verdade. Não ouvi.