2020: o ano do cansaço

Roberto Mancuzo

CRÔNICA - Roberto Mancuzo

Data 29/12/2020
Horário 06:30

Que me perdoem os otimistas, palestrantes de autoajuda e Pollyannas de plantão, mas 2020 foi um ano chato pra caramba. Digo mais: 2020 foi o ano do cansaço.
Eu juro que participo da onda super positiva de aprender a viver com menos, reconhecer a importância da família e dos amigos, cuidar da saúde com mais atenção, valorizar o trabalho e o contato humano em diversas dimensões, mas a canseira não está aí. 
2020 é um ano cansado pela incapacidade humana em conseguir ultrapassar uma pandemia sem fazer lambança. Para mim, não há explicação plausível para pessoas tomarem decisões essencialmente individualistas, ideológicas, corruptas ou lenientes em meio a tantas mortes e sofrimento. 
Que canseira ter que ouvir discursos contra as vacinas ou ainda que elas não possuem eficácia, causarão efeitos colaterais devastadores ou vêm com chip (!). Eu vou tomar a vacina que as autoridades de saúde liberarem. Não vou me imunizar em um beco escuro, no centro de uma cidade. Que mundo este povo vive?
Que canseira estar em um espaço de aglomeração e encontrar alguém ainda sem máscara. 
Que canseira ver que pessoas organizam festas clandestinas e que jovens resolvam participar do rolê para depois contaminarem parentes e amigos. 
Que canseira ter que esperar atitudes mais sensatas e menos ideológicas, mentirosas e infantis do governo federal. Desculpem os admiradores de políticos de estimação, mas eu nunca vou entender a “tirada de corpo” que o presidente deu para não assumir o protagonismo de liderança na crise sanitária. Usou como justificativa para isso uma decisão do STF (Supremo Tribunal Federal), que na falta de uma coordenação central autorizou governos estaduais e municipais a agirem. Podem interpretar como quiser, mas para mim, Bolsonaro não só perdeu a chance de liderar o país em um momento tão delicado como também surfou na onda populista do inevitável auxílio emergencial e subiu em um pedestal de pureza para jogar a culpa de tudo de ruim que a pandemia gerou em governadores e prefeitos.
Que canseira ter que enxergar o óbvio quando o governador João Doria flexibilizou as medidas de isolamento antes das eleições para retroceder o Estado inteiro às fases amarela, laranja e vermelha logo após o pleito. Não era tão grave, mas de repente, olha só! Uma segunda onda, quem diria...
Que canseira ver Doria e Bolsonaro politizando a tão sonhada vacina e espalhando medo e insegurança em uma população já tão assustada. 
Que canseira de estar cansado de ouvir notícias sobre governadores, prefeitos, secretários, funcionários públicos comissionados ou de carreira envolvidos em superfaturamento e corrupção na compra de equipamentos hospitalares, remédios e outros suprimentos. 
Que canseira ver pessoas optando por se informar em grupos de WhatsApp, em mensagens sem fonte alguma, em notícias dadas de forma atravessada ou pela metade, e pior, levando estas baboseiras a frente como “notícias”. As fake news dominaram as redes sociais este ano mais uma vez e quem as disseminou é tão cúmplice quanto quem as criou.   
Clarice Lispector tem uma citação que adapto ao final desta crônica tão cansada: “[...] Uma das coisas que aprendi é que se deve viver apesar de. Apesar de, se deve comer. Apesar de, se deve amar. Apesar de, se deve morrer. Inclusive muitas vezes é o próprio apesar de que nos empurra para frente [...]”
E, então, às portas de 2021, eu acredito e sigo, mesmo cansado e apesar de.
Apesar do vírus e de todos que citei acima, eu vou continuar a ter fé na vida, a ter uma raça que durante séculos já provou ser superior e capaz de enfrentar as piores calamidades: a raça humana. 
 

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