300 mil

OPINIÃO - Thiago Granja Belieiro

Data 31/12/1969
Horário 21:00

Um dos livros mais lidos e relidos em 2020, foi o romance “A Peste”, do escritor e filósofo franco-argelino Albert Camus. O livro, escrito em 1947, narra a disseminação da peste negra numa pequena cidade argelina na década de 40. Li esse livro em 2004 e não tive vontade de voltar ao texto em 2020, afinal, a vida real estava bem mais difícil do que relatava a ficção de Camus. Me lembro muito bem do que mais me marcou nesse romance, a indiferença com a morte dos contaminados pela peste, indiferença que aumentava à medida que crescia o número de cadáveres, que na ficção jaziam abondonados pelas ruas.
Nesse ano, continuidade trágica do ano passado, nem sempre tenho certeza se estamos vivendo a realidade ou estamos imersos numa ficção trágica como no texto de Camus. Talvez estejamos vivendo em conjunto com esse, o enredo de outro livro, tão trágico quanto o primeiro, somos personagens reais do “Ensaio Sobre a Cegueira”, de José Saramago, outro clássico redescoberto em 2020. 
São assustadores os números que representam pessoas reais, famílias inteiras que sofrem, que choram e lamentam diariamente a morte de seus 300 mil entes queridos. Nessa realidade quase ficcional, o que mais tenho visto é isso, indiferença e cegueira coletiva. Parece que são poucos aqueles que conseguem se sensibilizar e sofrer a perda de tantos brasileiros desconhecidos. Ao final do dia, quando saem as estatísticas das últimas 24 horas, o país, que deveria fazer silêncio em respeito às vitímas, está fazendo caminhada no parque, se aglomerando nas vias com a máscara abaixo do nariz, se acotovelando nos supermercados, levando a tal da “vida que segue”.
Cegos e indiferentes com a morte do próximo, cegos e indiferentes com a própria possibilidade de adoecer e precisar de uma vaga na UTI, grande parte dos brasileiros mantêm vida normal na fase emergencial do plano SP. Pode ser que a mistura entre a realidade trágica e a ficção criada pelas fake news, pelas narrativas falsas, pelos terraplanismos de variados matizes tenha nos tirado o discernimento necessário para a compreensão da gravidade do problema que enfrentamos. 
Sempre pensei que a ficção fosse um alento em meio ao caos da existência, mas nunca pude imaginar que viveria na pele a indiferença e a cegueira narrada pelos clássicos. 

 

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