Estou naqueles dias em que as palavras se escondem. Escuto um zumbido lá no fundo dos ouvidos. Seriam palavras remanescentes de discursos? Tento em vão decifrá-las. Também não adianta procurá-las no dicionário, na tela acesa ou nos rascunhos do caderno de anotações. Elas simplesmente se retiram porque o mundo também precisa de pausa. Nesses dias, resta respirar fundo. Olhar pela janela. Escutar o ruído pequeno da casa. Observar os passarinhos alojados nas árvores do fundo do quintal. Depois, caminhar até a cozinha e cuidar de afazeres domésticos.
A cozinha brasileira começa antes do fogo. Começa na feira, na escolha da abóbora, no toque da macaxeira, no cheiro-verde ainda úmido, na cebola guardando suas camadas de silêncio. Cada ingrediente parece simples, mas carrega uma viagem longa. Veio da terra, da chuva, da mão que plantou, da mão que colheu, da mão que vendeu, da mão que agora corta e prepara a refeição.
Quando a cebola cai na panela, alguma coisa desperta. Pensei comigo como o óleo quente traduz o que a boca não conseguiu dizer. O alho chega em seguida, com seu aroma discreto e definitivo. No fundo, forma-se aquele queimadinho escuro, quase uma cicatriz. Há quem veja ali descuido. Mas a cozinha ensina que nem toda marca deve ser apagada. Algumas precisam apenas de caldo para revelar seu sabor.
A abóbora se desfaz devagar. A macaxeira engrossa com o tempo. O sal e a pimenta encontram seus lugares. E a casa, pouco a pouco, muda de atmosfera. Do silêncio das palavras, foi da cozinha que eclodiu uma festa. Afinal, cozinhar no Brasil é mexer uma panela e tocar uma memória coletiva. É conversar com povos indígenas que domesticaram a mandioca, com mulheres negras que reinventaram o alimento na adversidade, com avós que mediam tudo no olho e sabiam a hora certa pelo cheiro. É o improviso que virou método.
“A culinária não cabe numa receita”, dizem os mais velhos. E quantos relatos divertidos, repletos de sabedoria e troca de experiências, não é verdade? Por isso, nos dias sem palavras, a cozinha fala. Ela é mistura, travessia, resistência. É a pobreza transformada em abundância simbólica. É a mesa pequena que sempre encontra espaço para mais um prato. Fala pelo vapor que sobe, pela colher de pau que raspa o fundo da panela, pelo prato servido ainda quente. E quando alguém prova em silêncio, talvez entenda: há afetos que não precisam ser explicados. Basta que sejam temperados, repartidos e comidos devagar.