A cultura da hortelã

Benjamin Resende

COLUNA - Benjamin Resende

Data 22/11/2020
Horário 07:45
Coronel Goulart em suas terras, ao redor de Presidente Prudente, 1941
Coronel Goulart em suas terras, ao redor de Presidente Prudente, 1941

Acultura da hortelã, em Presidente Prudente e região, nos idos de 1940 a 1944, coincidiu com o período da Segunda Guerra Mundial, 1939-1945, também chamada de guerra entre as Potências do Eixo - Alemanha, Itália e Japão - e os Aliados. Faziam parte destes a Grã-Bretanha, a União Soviética e os Estados Unidos da América. A Alemanha, após perder a Primeira Guerra Mundial, 1914-1918, rearmou-se secretamente. Seu chefe, o todo-poderoso Adolph Hitler, em 1936, ocupou a antiga România, contrariando os termos de paz de Versailles. A Itália, governada por Benito Mussolini, aliou-se a Hitler, no eixo Berlim-Roma, e, em 1937, a Itália comprometeu-se a apoiar o Pacto Anti Cominterm, entre a Alemanha e o Japão. A Grã-Bretanha, em 1939, declarou guerra à Alemanha e, um ano depois, o Primeiro Ministro inglês Winston Churchill tornou-se o chefe de um governo de coalizão. No final de 1941, o Japão atacou a frota norte-americana em Pearl Harbor, motivando a entrada dos Estados Unidos da América na guerra, ao lado da Grã-Bretanha. Do início da guerra constam invasões da Alemanha em alguns países da Europa e ocupações dos Estados Bálticos pela União Soviética. Bombardeios, ofensivas e contraofensivas eram as notícias diárias, registradas pelo Repórter Esso. Em 1941, momento mais crítico da guerra, a Europa inteira sentia a falta de matérias primas para suas indústrias. Alimentos se tornavam cada vez mais escassos. Os mares foram bloqueados. Os mercados do Extremo Oriente não puderam suprir as necessidades vitais da população europeia. Tudo parou. Entraram em cena os países distantes do palco da guerra. Era a hora e vez do Brasil, principalmente com o fornecimento do óleo da Hortelã. A Alta Sorocabana privilegiou-se com a plantação da “mentha viridis”, uma lavoura totalmente diferenciada do café, algodão, amendoim, feijão e milho, até então desconhecida dos agricultores da região. Os japoneses, aqui radicados, iniciaram a plantação, seguidos por alguns fazendeiros, porque os preços eram convidativos e a safra assaz compensadora. Os primeiros ousados plantadores da hortelã gozaram de lucros nunca dantes vistos. No segundo ano da cultura da hortelã, os lavradores deixaram de lado a cultura tradicional, principalmente a do algodão. Só se falava em plantar hortelã. Começou, estabanadamente, a procura e a aquisição de ramas para plantação. Quem as tinha vendia-as por um preço exorbitante. Instalou-se a febre da plantação da hortelã em brejos, banhados, à beira de riachos, estendendo-se pelas glebas de solos arenosos. De 1941 para 1942, a colheita dobrou e uma dinheirama circulou entre os plantadores da leguminosa. E máquinas improvisadas destilavam o óleo. A procura pelo óleo da Hortelã explodiu. Compradores vinham da capital, para fazer bons negócios. Os preços aumentavam do dia para a noite. No fim da safra de 1942, um litro de óleo de hortelã alcançava a quantia de quatrocentos cruzeiros. Um absurdo para a época, o que acirrou os ânimos e a cobiça de se plantar hortelã. A febre da hortelã contagiava agricultores, comerciantes, funcionários públicos e proprietários de terra, que empatavam suas economias no plantio da mentha viridis. Todos só pensavam e queriam plantar a danada da erva rasteira. Já não se cultivavam mais algodão e amendoim. Destruíam-se as pastagens para o plantio das ramas do ouro-verde-oleoso. A Segunda Guerra Mundial precisava da erva rasteira da família das labiadas, a mentha viridis, para extrair um óleo rico em mentol, que servia de combustível para os aviões, sendo os Estados Unidos da América o maior importador. Álvares Machado tornou-se a capital do óleo da hortelã, com sua fábrica Brasmentol. Tambores de óleo enchiam caminhões com destino ao porto de Santos. Pelas fazendas, sítios e chácaras só se viam um tapete verde. Feixes e feixes cobriam carroças, animais com cargas e camionetas transportando a mentha viridis, a nova riqueza da Alta Sorocabana. E, em todas as rodas de homens, no campo e na cidade, a única conversa era o plantio e a colheita da leguminosa. Todavia, no decorrer de 1943 para 1944, as chuvas falharam. A seca ia matando as ramas de hortelã. O desespero começou a tomar conta dos plantadores da erva rasteira. Dívidas contraídas iam-se acumulando. Sem chuva, não havia replanta. Também a guerra chegava ao fim. Com ela, perdia-se a procura pelo óleo da hortelã e, consequentemente, o preço foi caindo, até beirar de vinte a trinta cruzeiros por litro, mas sem procura. Desespero, bancarrota e, até, suicídios tomaram conta de Presidente Prudente e região. Um colapso econômico total, jamais visto.

 

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