A equipe multi é poli

OPINIÃO - Fernando Alvieri

Data 09/07/2026
Horário 05:00

Trabalho em hospital há 15 anos e já vi muita coisa. Mas, esse não é um texto sobre mim. É sobre minha percepção dos bastidores.
Enfermeiros, biomédicos, fisioterapeutas, fonoaudiólogos, farmacêuticos, entre outros, dedicam suas vidas para cuidar do próximo. Plantões extenuantes; carga horária infinita e pouco reconhecimento, fazem parte do cotidiano de quem cuida.
Em um setor qualquer de um hospital você poderá encontrar a enfermeira que vende doces; o biomédico que vende produtos de estética em um catálogo qualquer escondido no jaleco, a farmacêutica que é famosa por seus lanches naturais e muito provavelmente uma fisioterapeuta que é referência em marmitas fit. 
Se você caminhar por corredores menos frequentados pode encontrar a nutricionista que também atende on-line e os técnicos de radiologia que oferecem camisas de times de futebol importadas, mas não do Paraguai.
Bolos de pote, morango do amor, copo da felicidade e outros doces da moda também circulam entre prontuários e prescrições. Esses são os produtos mais frequentes que estão misturados com a olheira e o amor à profissão.
Após o plantão corrido, existem outras demandas, como: família, filhos, outros plantões e o descanso reduzido, pois o preparo do complemento da renda também leva tempo. A equipe multiprofissional se acostumou a normalizar o complemento de renda e o desgaste emocional frequentemente disfarçado de “falta de inteligência emocional”
O olhar do cuidado atravessa esses profissionais e limita apenas no doutor. Entre emergências e dor ainda resta finalizar uma venda no intervalo. Antes de ir para o segundo turno não se pode esquecer de olhar a escala fixada no mural e perceber que perdeu sua folga. Replanejar toda sua vida por conta de um papel.
Com algumas horas, depositadas no banco só resta sair na chuva para pegar o carro ou o ônibus do outro lado da cidade pela proibição de vaga no estacionamento.  
Na pandemia houve uma valorização efêmera da equipe multiprofissional, mas o salário e o reconhecimento, não. Para esses profissionais o “novo normal” nunca chegou.
A versatilidade desses profissionais não é só sobre amor, mas uma questão de sobrevivência. Enquanto esperamos mais aplausos na próxima pandemia relaxamos os músculos com doces comprados nos bastidores.
 

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