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A espera e sua magia

A avalanche de súbitas mudanças anda junto com as frequentes frustrações em nossa trajetória do dia a dia. Qual será a herança que crianças e adolescentes a longo prazo, terão em decorrência do mecanicismo pelo qual se faz presente entre as relações humanas? Na infância há o mundo da fantasia, magia, ilusão, criatividade, crença e fé nos super-heróis. É tão bom acreditar. É tão bom ser criança. Não podemos deixar a criança interna que nos habita perder-se. A esperança esvai-se. Também a capacidade de acreditar e sonhar! Tudo se encontra tão concreto! As pessoas estão muito autossuficientes e onipotentes. Muito sabichões. Tenta conversar numa roda sobre qualquer assunto. Estão todos formados e pós-doutorados em qualquer que seja o tema. Tédio. Eu não ensino nada novo, pois todo mundo sabe tudo. Eu não aprendo nada novo, pois já sei tudo. E assim, Tempos Modernos de Charles Chaplin de 1936 está muito vivo e presente em 2019. Somos operários desempenhando um trabalho repetitivo de apertar “parafusos”. De tanto apertar “parafusos” estamos com problemas de estresse e estafa. Assim perdemos a emoção de tal forma que passamos a não pensar, “aposentamos” o aparelho de pensar os pensamentos, e daí passamos a apertar tudo que se parece com parafuso, como botões de uma blusa, por exemplo. Pensei sobre a espera e suas vicissitudes. A espera pelas pessoas. A surpreendente chegada em casa de alguém e ser bem recepcionada. Para onde foi à espera pelo papai Noel no Natal? Para onde foi a espera pelo filho que vai chegar? E os pais que irão chegar? Como estamos ficando quando sabemos que vamos receber alguém em nossa casa? Existe a espera? Ou estamos banalizando tudo? Meus pais quando descobrem que estou indo para São José do Rio Preto tomam banho. Para eles, tomar banho, passou a ser uma batalha. Meu pai tem 98 anos e minha mãe 90. Eles me esperam limpinhos.  É uma grande felicidade ser esperada assim. Como me sinto importante! Ainda hoje conversava, e a narrativa transcorria sobre a frustração de chegar e decepcionar-se por não ser esperada. Ser esperada com um pudim de leite condensado sobre a mesa é mágico. Saber que alguém está fazendo bolinho de chuva para meus filhos é fantástico. A arte da preparação e a expectativa pela espera de alguém que irá chegar não deveriam tornar-se banais. É algo fundamental e não pode transformar-se em algo obsoleto. Transformar toda espera em algo mágico faz bem para a alma. “Se tu vens, por exemplo, às quatro da tarde, desde as três começarei a ser feliz. Quanto mais a hora for chegando, mais me sentirei feliz” (Saint-Exupery).

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