A fé cega

Roberto Mancuzo

CRÔNICA - Roberto Mancuzo

Data 18/08/2020
Horário 05:02

Amigo leitor, amiga leitora, olha, às vezes não é que a gente cai. A gente despenca.  
A pandemia trouxe sim, entre outras situações, alguns momentos de perda de fé. Fomos avisados de que não somos tão poderosos assim. Veio o medo de sermos infectados, de sair do convívio da família e até, olha só que loucura, morrer! 
É, a vida de repente tornou-se frágil e entrar num labirinto de ideias ruins é bem fácil. 
Dá para sair dessa? Ô se dá, mas precisamos internalizar alguns pontos. 
O primeiro é tentar responder por que insistimos na dor, mesmo com a plena consciência de que nos faz muito mal? O sofrimento antecipado é como uma companhia indesejada, mas decididamente aceita por nós. Aparece quando menos se espera, ao fazer um café em uma tarde chuvosa, no meio da conversa com alguém no trabalho, dentro até da própria igreja, e o acolhemos com muita graça e carinho. Colocamos o sofrimento para dormir, alimentamos e passeamos com ele. E o bichinho vai crescendo, reproduzindo-se até virar um belo de um bode na sala.
Há momentos, porém, que isso não é só uma perspectiva, mas sim um lance real: uma grande perda, uma discussão com um amigo ou a falta de reconhecimento profissional. Pode ser até o descuido de pensar por 20 segundos e olhar antes de responder à pergunta da esposa: “Você acha que eu engordei muito durante a pandemia?”. Neste caso, vai por mim. A resposta segura é curta: “Para com isso! Você está ótima!”. 
Bem, e a fé com tudo isso?
Milton Nascimento tem uma música intitulada “Fé Cega, Faca Amolada”. Sempre me chamou atenção este título e vejo que a contradição que há nele é a nossa própria relação incerta entre exercitar ou não a razão. Explico: ter fé sempre foi muito mais do que um sentimento. Aliás, de tudo que é, a fé é o que não se sente. Fé é uma decisão e para além de qualquer religião, é um poderoso instrumento para fazermos valer qualquer desejo. 
Veja Gandhi, por exemplo. Quem ousava acreditar, por um segundo que fosse, que aquele homem esquelético, frágil, fosse tirar um país inteiro, a Índia, das mãos do império britânico? 
Bem, ele acreditou e fez. 
Pare para pensar e verá que isto é muito forte. Ou seja, a fé tem que ser cega mesmo porque envolve um pulo no escuro, no inabitável, no duvidoso. Se a fé for amolada, ela deixa de conter nela própria o inexplicável. Ela agiria racionalmente, cortaria seco, seria previsível. A faca precisa ser amolada, mas a fé nunca. 
E olha que precisamos das duas em ponto certo, porque a fé me deixa pronto para o que der e vier e a faca, ou a racionalização da faca, me deixa conectado com o mundo concreto. 
O que quero refletir e provocar de verdade é que precisamos ter mais fé em nossa própria existência neste mundo e no merecimento que temos por poder ainda respirar. 
Criados por nós ou não, nossos problemas não resistem a uma boa dose de fé.
 

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