A lua

OPINIÃO - Raul Borges Guimarães

Data 01/02/2026
Horário 05:00

Sou desses que se apaixonam quando a nossa cidade baixa o tom de voz e, no escuro, a memória se solta, o pensamento encontra ritmo próprio, o coração desacelera para ouvir o que ficou para trás. Uma boa hora para sair de casa e sentir a cidade que habita lá fora. E lá estava eu, sentado no banco da praça naquele instante preciso, quase imperceptível, em que o último azul se rende, e a Lua começa a escrever a sua caligrafia.  
Gosto de caminhar sob esse teto escuro, como quem atravessa um território antigo. Especialmente, eu gosto das noites de lua crescente porque ela não promete o todo. Promete apenas o começo. Metade promessa, metade silêncio, ela se pendura no intervalo dos semáforos, espelha-se tímida nos vidros cansados dos edifícios. 
Há quem diga que essa é a lua do plantar, do lançar sementes. Eu penso que é a lua do “ainda”, do “quase”, do “vai ser”. Ela não se impõe - insinua. Eu penso que é a lua do cuidado. Tudo o que precisa ser protegido: a palavra recém-dita, o sonho recém-sonhado, o afeto que ainda não sabe se fica. Pois é, há coisas que só existem se amadurecem. 
A lua crescente lembra também da vida cotidiana, essa que cresce aos poucos, entre erros, retomadas e pequenas vitórias. Gente apressada, sonhos empilhados, concreto sobre concreto. Mas ela insiste e cresce devagar, noite após noite, ensinando que o tempo não gosta de atropelos. Ela não quer aplausos. Quer continuidade. E então, numa dessas noites, a transição se completa. A lua cheia surge sem surpresa porque já vinha sendo anunciada. A passagem da lua crescente à lua cheia é isso - a transformação do possível em presença, do esboço em forma, da promessa em luz inteira.  
Deve ser por isso que, em noites de lua mais clara, as corujas aparecem pelos cantos da cidade, vocalizam mais e são mais facilmente percebidas. Uma marca o tempo e não explica. A outra ensina a escuta e a vigia. Mas a lua lá no céu não muda a coruja. Ela muda a visibilidade da coruja. E juntas guardam segredos e mistérios do escuro. Lembram algo que os ancestrais sabiam muito bem: há sabedorias que só aparecem quando aceitamos a noite. 
Ah, como eu gosto do céu da nossa cidade!  Entre antenas, fios e anúncios, a lua insiste em ser antiga, um risco de tempo lento no meio da paisagem urbana. A lua crescente se pendura nos prédios como um parênteses aberto no céu de concreto. Eu sou excesso. Barulho. Pressa. Mas confesso: preciso do seu silêncio para lembrar que existo.    
 

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