A morte do pardal

ALINE MARTINS - Da Redação

COLUNA - DA REDAÇÃO

Data 22/09/2021
Horário 15:43

Não se vendem dois pardais por um asse? E nenhum deles cairá em terra sem o consentimento de vosso Pai. Mateus 10:29

Em meus tempos de criança, quase todos os garotos de minha idade tinham estilingue e caçavam passarinhos nas ruas da cidade. Contavam façanhas que me deixavam extasiado. Um deles disse, certa vez, que havia acertado uma pedrada num passarinho em pleno voo, derrubando-o.

Um dia, cansado de não ter o que contar, consegui o material necessário: uma forquilha, um par de borrachas e um pedaço de couro. Então fabriquei meu próprio estilingue. Pendurei-o ao pescoço, conforme o costume, passei a andar com os bolsos cheios de pedras, e comecei a praticar “tiro ao alvo” em latas velhas no fundo do quintal.

Uma tarde vi um pardal pousado no alto de uma goiabeira. Era um alvo perfeito. Apanhei o estilingue, coloquei uma pedra e esgueirei-me por baixo da árvore. Mirei e disparei. A pedra acertou o pardal com um barulho surdo. O bicho ficou pendurado por uma perna no galho e logo caiu morto.

Finalmente eu tinha o que contar aos colegas. Eu poderia dizer que pertencia ao grupo dos atiradores. Mas, quando ergui do chão o pardal, um pingo de sangue manchou minha mão. Isso me deixou horrorizado. Estava com as mãos sujas de sangue!

O sabor da vitória não havia durado um minuto e dera lugar a uma estranha sensação: eu me sentia um assassino. Imediatamente procurei abafar a voz da consciência, dizendo a mim mesmo: “Mas que bobagem! Um pardal não vale nada. Isso é praga! Talvez eu até tenha feito um favor.” Entretanto, a imagem de minhas mãos sujas de sangue me acompanhou por muito tempo.

Na época de Cristo, vendiam-se passarinhos por uma quantia ínfima, provavelmente para serem comidos ou oferecidos em sacrifícios (caso de rolinhas e pombos).

Há pelo menos duas lições que o texto de hoje nos ensina. A primeira contraria frontalmente o ensino deísta de que Deus existe, mas não Se importa com Sua criação. Ele Se importa, sim, até mesmo com um pardal que cai ao chão. E a lição maior dada por Jesus é: “Não temais, pois! Bem mais valeis vós do que muitos pardais” (Mt 10:31).

Valemos muito, mas temos que admitir que nossas mãos estão manchadas de sangue; não de um pardal, mas do Cordeiro de Deus, que deu a vida para nos salvar.

Rubem Scheffel, 23/2/2010

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