Era um sábado comum. Daqueles em que a casa segue seu ritmo, as tarefas vão sendo resolvidas e a vida acontece. Entre uma conversa e outra, enquanto um serviço era realizado, surgiu algo que não foi exatamente um debate político, mas acabou sendo um retrato bastante fiel da política que atravessa o cotidiano da classe trabalhadora.
Falávamos sobre trabalho. Sobre rotina. Sobre cansaço. Sobre a dificuldade de equilibrar jornada extensa, renda limitada e pouco tempo para descanso. Nada de discursos. Apenas a vida sendo contada como ela é.
Em determinado momento, a conversa chegou à escala de trabalho seis por um — seis dias de trabalho para apenas um de descanso. Uma realidade comum para milhares de trabalhadores no Brasil, especialmente em setores como segurança, comércio, serviços e vigilância. A sensação compartilhada era que um único dia de folga não dá conta da vida. Não dá conta da família, da saúde, dos compromissos pessoais, muito menos do descanso físico e mental.
O governo federal anunciou a elaboração de um projeto de lei para unificar propostas que tratam do fim da escala 6×1, com expectativa de tramitação ainda no primeiro semestre de 2026. A proposta dialoga com a PEC 148/2015, já aprovada na Comissão de Constituição e Justiça do Senado, que prevê a redução gradual da jornada semanal, garantindo pelo menos dois dias de repouso.
Como afirmou a ministra das Relações Institucionais, Gleisi Hoffmann, não é razoável que trabalhadores tenham apenas um dia na semana para descansar e resolver suas próprias necessidades, situação que atinge de forma ainda mais dura as mulheres.
A conversa também passou por outro tema: a Carteira Nacional de Habilitação. Para muitos, dirigir não é luxo. É condição de trabalho, mobilidade, autonomia e, muitas vezes, sobrevivência. E nesse sentido, o Ministério dos Transportes vem conduzindo um projeto para democratizar o acesso à CNH, reduzindo custos e burocracias. A proposta recebeu mais de 10 mil contribuições da população em menos de uma semana, tornando-se uma das maiores consultas públicas do atual governo. A expectativa é de que o valor para obtenção do documento possa ser reduzido em até 80%, ampliando oportunidades profissionais e promovendo inclusão social, sobretudo entre pessoas de baixa renda.
Outro ponto que apareceu na conversa foi o impacto do imposto de renda no orçamento mensal. A partir de 2026, o governo federal anunciou mudanças que reduzem o imposto para rendas de até R$ 5 mil, com regra de transição para quem recebe até R$ 7.350. Tecnicamente, não há criação de uma nova faixa formal de isenção, mas mecanismos de redução do imposto devido, que podem resultar, na prática, em imposto zerado para quem está nessa faixa de renda.
Esse detalhe é importante porque revela que as políticas públicas atuam diretamente onde pesa mais no bolso de quem vive do trabalho.
O mais interessante de tudo isso é que nenhuma dessas reflexões surgiu como um debate ideológico. Elas nasceram da vida. Da experiência cotidiana. Do cansaço acumulado. Da tentativa constante de fazer o mês fechar.
É nesse ponto que a política deixa de ser um assunto distante e passa a ser compreendida como aquilo que organiza — ou desorganiza — o cotidiano das pessoas. Não é preciso ser especialista, analista ou estudioso para entender quando uma medida melhora ou piora a vida. Basta viver.
Mesmo com diferenças de opinião, existe algo que costuma nos unir: o desejo de dignidade, tempo, renda justa e condições de viver bem, e não apenas sobreviver.