A revolta dos descartados: o lendário Pelotão Perdido

Persio Isaac

CRÔNICA - Persio Isaac

Data 24/04/2026
Horário 08:07

Em Presidente Prudente, o sol não é apenas um astro; é um monarca absoluto que cobra impostos em suor. Naquela juventude de meados dos anos 60, o padrão de beleza era o "príncipe" Ronnie Von: cabelos lisos, escorrendo pela testa como seda. Deus, porém, em sua infinita ironia, me agraciou com a "beleza egípcia". Um conceito estético tão avançado e incompreendido que me obrigava a passar noites em claro com a infame "touca de meia" — aquele instrumento de tortura doméstica que prometia o liso imperial, mas entregava apenas um visual de faraó em dia de vento. 
O cenário era o lendário I.E. Fernando Costa. O hit do momento não era o rádio, eram as fanfarras. Eu, o Tiago (o Alemão) e o Zé Roberto Marcondes estávamos "na ponta dos cascos". Por baixo do uniforme impecável, batia um coração de guerrilheiro do sertão paulista, devidamente paramentado com a camiseta do Che Guevara e a trilha sonora mental de Geraldo Vandré. Éramos os revolucionários da Alta Sorocabana, prontos para marchar e mudar o mundo, ou pelo menos a Avenida Washington Luiz.
Mas o destino, personificado no professor Osmar, tinha outros planos. Ele se aproximou do nosso grupo com aquela cara de quem ia dar uma nota baixa coletiva e sentenciou:
— "Tem gente demais. O corte é aqui. Daqui para trás, estão todos dispensados!"

O nascimento da dissidência
A frustração foi um soco no estômago. Esperar o ano inteiro para ser cortado na hora do "vamos ver"? Nem pensar. O Tiago Alemão, mestre na arte da irreverência, partiu pro confronto e ligou o botão do "f...." com uma convicção invejável. O Zé Roberto Marcondes, no mesmo espírito de rebeldia, não aceitou o banco de reservas da pátria.
— "Peraí," pensamos nós, "se o professor não quer que a gente desfile com eles, a gente faz o nosso próprio desfile!".
E assim, nasceu o Pelotão Perdido.

Marchando para o nada
Alinhamos a nossa pequena tropa de renegados e começamos a marchar. Mas não para a Washington Luiz, onde a elite e as autoridades esperavam. Marchamos para o lado oposto, para dentro dos bairros, para onde o vento fizesse a curva. Éramos o "Pelotão do Povo".
O Zé Roberto com um espírito de um Coronel sem estrelas mantinha a disciplina. O Tiago liderava com o desprendimento de quem já não devia nada a ninguém, e eu seguia firme, torcendo para que o suor do deserto prudentino não desmanchasse o efeito milagroso da touca da noite anterior.
As pessoas nas calçadas paravam, estupefatas. Coçavam a cabeça e gritavam:
— "Ei! Vocês estão errados! O desfile é pra lá, na Washington Luiz!"
A gente nem olhava. O Tiago só dava aquele sorriso de canto de boca. Nós éramos o exército de um ideal só: o de que ninguém manda na nossa vontade de marchar. Estávamos "sem lenço e sem documento", mas com uma alegria subversiva que nenhum professor Osmar conseguiria confiscar.
O Pelotão Perdido desbravou Prudente naquele dia. Não ganhamos medalha, não saímos no jornal, mas conquistamos o território mais difícil de todos: a liberdade de ser ridículo com dignidade. Até hoje, se você prestar atenção em algum eco perdido nas ruas da nossa aldeia, ainda pode ouvir o som dos passos do Pelotão Perdido, marchando contra a correnteza, abraçados na ilusão de sermos irreverentes. Vejam vocês.
 

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