A “Torta da Titia”

OPINIÃO - Raul Borges Guimarães

Data 09/05/2021
Horário 05:00

Sou de uma família de mineiros. Tenho muita simpatia pelas reduções como “ocê” e “nu”! E os diminutivos carinhosos e afetuosos? Que saudade do “vovô Maninho” e da “vovó Filhinha”! Também acho divertido os apelidos muito frequentes nas casas mineiras: Maria Angélica era a “Gegeca”, Newton era o “tio Loló”... Dentre as várias tias mineiras, somente a tia Wilze era chamada de “titia”. Seria porque ela era a única irmã de minha mãe? Todo esse introito para eu falar de um dos segredos culinários da minha família mineira: a famosa “Torta da Titia”.
A Titia era mulher trabalhadeira. Durante a semana fazia a contabilidade de um grande hospital que havia em Uberlândia. Um corre-corre danado! Mas ela costumava ir para a cozinha nos domingos especiais de reunião da família. A comida era muito simples. Arroz branco, maionese, salada de tomate e uma bela travessa com a torta de forno!
A “Torta da Titia” era feita com uma espécie de massa podre daquelas bem quebradiças que esfarelam a cada mordida! Mas a massa era colocada apenas por cima porque o recheio era, ao mesmo tempo, cremoso e bem molhadinho... E eu sempre observava a minha tia procurar os ingredientes na geladeira. Ela era muito prática. Se tinha sobra de frango, lá ia ele desfiado para a panela. Mas tinha domingo que o recheio era mesmo de salsicha, molho de tomate, azeitona, cheiro verde.
Por muitos anos ficou o desafio. Quem seria capaz de fazer uma torta de forno mais próximo da famosa “Torta da Titia”? Tudo indica que o herdeiro dos dons culinários seja o meu irmão Quinho. Numa última viagem que fiz para Goiás, antes da pandemia, eu descobri um detalhe muito importante. A “Torta da Titia” é muito parecida com o popular “empadão goiano”. Tal comparação até faz sentido porque Uberlândia é das Gerais, bem no caminho das cidades históricas goianas. Não duvido que tenha havido aí alguma influência cultural. Afinal, desde que haja autonomia, os povos exercem seu direito de produzir e definir em que condições produzir seus próprios alimentos. As refeições e as combinações de alimentos são manifestações culturais das diversas comunidades que constituem o Brasil!
Sem dúvidas, reconheço o valor simbólico da “Torta da Titia” para a minha família. Da mesma forma, relembro a importância do ato de comer com aquelas pessoas queridas nos domingos especiais. Mas nada disso importa agora. Minhas lembranças afetivas se desmancham diante da dura realidade de muitas famílias brasileiras em um Dia das Mães como hoje. Há uma epidemia pairando no ar. É a fome.
 

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