A vida adulta

Roberto Mancuzo

CRÔNICA - Roberto Mancuzo

Data 08/12/2020
Horário 07:00

Quando você chegou à vida adulta? Eu cheguei quando meu pai me colocou em um trem da Fepasa, deu um bilhete com um endereço e disse: “Quando chegar em Bauru procura o Dirceu. Ele é amigo de um amigo e vai ver (vai ver!) se tem vaga na república dele”. 
E lá fui eu, com duas malas enormes, a minha câmera fotográfica Pentax K-1000, e um papel na mão. Eu iria começar a vida adulta, mas ela já tinha começado e nem tinha sacado. Com 17 anos, desci na estação de ferroviária de Bauru e olhei para aquela imensidão, para as pessoas correndo em volta, para os guardas parados, os malacos no boteco, para minhas duas malas enormes e veio um nó na garganta. O choro não ia me ajudar e nem eu queria dar esse mole. Quando a gente é bichinho, procura demonstrar coragem. Mas o quê! Eu estava apavorado. 
Alguns meses depois, dormindo em um colchão embaixo de uma escada, eu recebi a notícia de que seria “promovido”. Uma cama havia vagado na república e se eu quisesse ficar, era minha vez. Eu estava crescendo. 
Na faculdade, o desespero da pessoa tímida no primeiro dia, naquela Unesp enorme, com as pessoas mais sacadas do mundo, quase me fez correr de novo. Mas caminhei, escorei no barranco do mistério que era minha vida naquela hora. 
E aí vieram as primeiras festas, os primeiros amores, os corações destruídos porque a menina mais bonita também era a mais rica como bem alertava o Lulu na música, a primeira sensação de viver sozinho e um dia, um homem me ofereceu uma conta bancária. Ok, era uma conta bem vagabundinha, mas era muito legal tirar um extrato e ver que tinha lá um limite de dinheiro para gastar. E eu gastei. Fiz com esta conta meu primeiro boleto. Boleto, para mim, naquele instante era uma vitória, não esta sala de espera do inferno que é agora. Boleto era a certeza de que eu podia pagar minhas contas! 
É assim foi! Eu crescia em medo, arrogância juvenil, sabedoria para virar homem feito e malandragem para escapar das tretas. 
Hoje, vivo outra vida adulta. Os medos são parecidos, os boletos aumentaram em quantidade e em estatura ($), as dores e amores são outros, mas ainda assim tenho a fé de que se um dia eu dei dois passos para frente naquela estação de trem, eu posso ir, e fazer, e construir o que eu quiser.
 

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