Abrir espaços para a oração (3)

OPINIÃO - Sandro Rogério dos Santos

Data 23/06/2019
Horário 05:50

Nos domingos passados, aventurei-me a abordar o tema da oração como um itinerário, pontuando seis passos. Os três primeiros para quando for rezar são: partir da realidade, ampliar o seu desejo e insistir e permanecer. Não devemos rezar a partir do etéreo, mas do chão da nossa vida, das alegrias e tristezas de nossa história. A oração passa pelo estado emocional atual de quem reza, se alegre ou se triste, ela se desenvolverá tal e qual.

Há outros passos, como pedir a afinidade com Jesus, entrar no escondido e deixar-se alcançar. Ao se tornar disponível e à escuta pode-se sintonizar com a vontade de Jesus, com sua obediência filial e com sua disposição radical para amar e dar a vida. Pouco importam o acúmulo de saberes e de doutrinas. Contam pouco o pensamento discursivo, a análise e a excessiva intelectualização. Santa Teresa de Jesus disse que “o aproveitamento da alma não está em pensar muito, mas em amar muito”. No seu “Caminho de Perfeição” ensina anão pensar nem conceituar, senão somente a olhar o Senhor.

“Os conceitos criam ídolos de Deus. Só a surpresa pressente algo” (Gregório de Nissa). Entra em contato com Deus não quem crê saber muito sobre Ele, mas quem tenta praticar a justiça, amar com fidelidade e caminhar humildemente com Ele (cf. Miquéias 6,8). No final da existência seremos examinados no amor, o que nos afina ao Filho. Instalemo-nos na humilde pobreza da primeira bem-aventurança e numa confiante esperança. Nem nossa debilidade nem nossa impotência para amar de verdade são obstáculos para que o Espírito trabalhe essa afinidade em nós.

Um novo passo exige a interioridade e o oculto. Entrar no quarto (do profundo de si, do coração). A oração é um encontro interpessoal, diálogo de secreta amizade com quem sabemos que nos ama. Deus faz aliança com Israel. Jesus quer amigos, não servos. No mais profundo de nós mesmos descobrimos uma interioridade habitada. Deus nos é mais íntimo de nós que nós mesmos. A oração necessita de verificação, não de justificação, pois tudo o que tem a ver com o amor pertence à ordem da gratuidade.

Em meio à dispersão de uma civilização do efêmero, os crentes nos sentimos chamados a cuidar do essencial; a nos inclinarmos para o que é verdadeiramente fecundo, mais além das aparências do espetacular; a escolher a cordialidade em meio a uma cultura racionalizada; a preferir a sabedoria à multiplicidade de conhecimentos; a cuidar do coração, porque dele, como nos recorda o provérbio, “jorram as fontes da vida” (Pr 4,23). Avançando, é preciso consentir à novidade surgida da relação com Jesus. Quando Ele alcança alguém, nunca o deixa como estava, mas sim transforma sua vida, abala o seu mundo de certezas e opiniões, transfere-o para outra ordem, que é o Reino de Deus.

A oração tem consequências; ao atravessar o seu umbral tudo fica em estado de risco, pois nos aproximamos a exemplo de Moisés da sarça ardente de uma presença que pode nos abrasar com seu fogo. A oração tem algo de êxodo e de êxtase. Ela é uma porta aberta que temos que atravessar se estivermos dispostos a essa mudança de perspectiva. Deixemo-nos conduzir pelo Bom Pastor. Exercitemos este encontro com Ele. Seja bom o seu dia e abençoada a sua vida. Pax!!!

 

 

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