Adolescência: um diálogo na fronteira

A atualidade estampa turbulências em seus diferentes vértices. Um deles diz respeito à adolescência. Não há turbulência maior do que trafegar pelo adolescer. E na maioria das vezes, a velocidade dessa travessia, entre infância e adolescência, impede o espaço para diálogos. Em alto mar, encontramos o farol para nortear nossa direção. Tratando da adolescência, muitas vezes, tanto o adolescente como a família são invadidos por nevoeiros, impedindo assim, a capacidade para enxergar, ouvir, sentir e perceber necessidades básicas fundamentais para o seu desenvolvimento. 
A falta de sensibilidade, respeito, acolhimento e afeto poderão levar o adolescente a trilhar por além dos limites da fronteira. Intolerância à frustração, ausência de limites, realização do prazer imediato são gatilhos em direção à ultrapassagem de fronteiras da realidade. Pensar sobre a melhor forma de viver a experiência do adolescer é fundamental. O adolescente de hoje será o adulto de amanhã. Adolescência provoca, muitas vezes, um terror indescritível relativo às mudanças púberes e hormonais, sociais e psíquicas. É fundamental um tempo de espera ou decantação para assimilação dessa turbulência. 
Autonomia, reconhecimento, inclusão, identidade e subjetividade são metas e desejos tanto do próprio adolescente como da família e certa exigência implícita e explicita da sociedade em que o jovem está inserido. Demandas tanto internas como externas de um psiquismo em construção, cobranças, superego severo levam a paralisações e confusões durante o desenvolvimento, provocando distúrbio de aprendizagem, conflitos na escolha de profissão ou amizades, delinquência, transtornos de ansiedade, depressão, suicídio, enfim, problemas impossibilitando o desenvolvimento. 
Estamos vivenciando atualmente, modelos, padrões, valores e estereótipos que incitam e excitam o jovem adolescente à superficialidade e robotização, caracterizando assim, grande incapacidade para o pensamento. O adolescente em fase de desenvolvimento é uma presa fácil em direção à “anencefalia psicológica”, e as redes sociais desempenham bem esse papel. Ainda em formação, adentram pela tela do computador ou celulares, realizando viagens de contextos “mágicos e perfeitos”, onde muitas vezes não retornam para o planeta Terra. 
Em órbita, com o diálogo na fronteira e autômatos tornam-se incapacitados para os significados dos símbolos, havendo ausência do pensar. Há impulso sem pensamento, e direção imediata para a ação. Observamos atuações tóxicas e muito perversas no nosso dia a dia. Vamos abrir de forma preventiva espaços para o diálogo e criatividade, em busca de estímulo à capacidade para o pensamento. A psicanálise poderá diante do nevoeiro em alto mar, inerente ao processo de cesura entre a infância e adolescência, navegar em conjunção, adentrando nesse movimento do desconhecido e proporcionar alívio e abrandamento em direção ao farol, objetivando controle e norte, desse mar em fúria.   
 

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